terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

UM FORRÓ NO UMBRAL

Adaptado de um dos contos do livro de mesmo nome, de Saara Nousiainen, formulando novas idéias e propostas importantes neste período de transição para um novo tempo.



Anastácio cambaleia nos sofrimentos de um enfarte. Aperta o peito com as mãos. Cai, estrebuchando nas angústias do desencarne e, finalmente, fica imóvel.

Sente-se arrastado, não sabe para onde. Aos poucos, começa a ouvir gemidos, gargalhadas e uivos distantes, que vão se aproximando. Reflexos de luzes alaranjadas e avermelhadas de uma fogueira dão ao ambiente um tom umbralino. Figuras grotescas, suadas e com as roupas em desalinho, arrastam-se ao som de uma sanfona desafinada e estridente, que toca música de forró. A um canto, um homem observa. É Jerônimo, administrador daquele núcleo. Anastácio também começa a dançar junto com os outros, movido por forças estranhas. Tenta parar e não consegue. Finalmente se deixa arrastar naquela dança estranha, enquanto grita:

– Mas o que é isso?... Será que estou ficando louco? Por que não consigo parar?

Desesperado, levanta o rosto para o alto:

– Meu Deus, o que está acontecendo?... Me ajuda! Tem misericórdia de mim!

De repente, a música pára e todos se estendem no chão, exaustos.Anastácio, olhos esbugalhados, apalpa-se, belisca-se, enquanto diz, aflito:

– Acho que isto é um pesadelo... Quero acordar!

Jerônimo se aproxima. O tom da voz denota piedade, quando diz:

– Passou a vida inteira em centro espírita e não percebe que já desencarnou...

– Eu...? Desencarnei...? Que brincadeira é essa?

Reflete um pouco, esfrega o rosto e, começando a convencer-se de que morreu, uma expressão de desespero toma conta do seu rosto, de todo o seu ser. Chora. Aos poucos reage e fala, revoltado:

– Então é assim?... Uma vida inteira votada ao Espiritismo... e termino num horrível e asqueroso forró?... Olha na direção do núcleo do forró e conclui:

– No Umbral... com certeza!

Desesperado, agarra Jerônimo pela camisa e pergunta, aos gritos:

–Que significa isto? Alguém tem que me explicar!

– Calma, Anastácio! Quer complicar ainda mais sua situação?

Olhando mais atentamente para Jerônimo, Anastácio exclama:

–Mas você é o Jerônimo. Você foi diretor da área doutrinária do centro. Como é que veio parar aqui?

Esfrega os olhos, o rosto, como a querer libertar-se de um pesadelo.

– Coisas da vida, meu caro – responde tranqüilamente Jerônimo.

– Só posso estar ficando louco! – exclama Anastácio.

– Não, Anastácio. Você não está louco... nem eu. Nós apenas nos enganamos, na Terra.

– Como? Então o espiritismo é mentira? Tudo aquilo que aprendemos é mentira?

– Não, meu amigo. A mentira estava em nós mesmos.

– Mas isso é um absurdo, uma injustiça!

Olha com ar de superioridade para Jerônimo, dizendo:

– Você, na verdade, bem que merece estar aqui, porque nunca foi um espírita decente. Além de irresponsável, sempre foi devasso. Pensa que não sabíamos? Chegou ao cúmulo de seduzir uma jovem da Mocidade... e o que foi que fez?... Hein?

Jerônimo baixa a cabeça, envergonhado. Anastácio continua:

– Induziu a garota a fazer aborto. Todos nós sabíamos disso.

Jerônimo levanta o rosto com ar de profunda mágoa dizendo, em tom de revolta:

– E não me disseram nada! Vocês são quase tão culpados quanto eu. Vocês, que se davam ares de grandes espíritas, praticantes do Evangelho... Para tudo tinham resposta na ponta da língua, como se fossem os porta-vozes do plano superior. Você, então, que era o mais procurado pelas pessoas que buscavam orientação, por que nunca me repreendeu? Por que nunca me aconselhou?

Anastácio abre a boca para responder, mas... dizer o quê? Jerônimo, abatido ao peso da mágoa, deixa-se cair no chão e põe a cabeça entre as mãos. Sua fala é quase um lamento:

– Eu sabia que aquilo estava errado, mas a tentação foi grande demais. A garota me deu bola e... foi uma paixão furiosa. Depois a gravidez, o medo da mulher descobrir... O escândalo. Eu sabia que vocês tinham conhecimento de tudo, mas como ninguém me aconselhou... como nada disseram... Achei que estavam aceitando tudo com naturalidade e eu também acabei acreditando que não estava tão errado assim.

Anastácio fica profundamente consternado. Finalmente exclama:

– Meu Deus, eu nunca tinha pensado por esse enfoque!

Como falando a si mesmo, continua:

– Mas você tem razão. Numa comunidade espírita as culpas de um atingem também aqueles que nada fazem para ajudá-lo a se corrigir.

A música começa de novo e todos vão sendo arrastados por estranha força, para a dança. Só Jerônimo parece imune a ela. Numa das viravoltas Anastácio tropeça e cai, arrastando outro dançarino ao chão. Ao olhar-lhe o rosto, reconhece-o:

– Manoel! Você aqui?

Ia estender-lhe a mão mas observa, horrorizado, que suas mãos estão enroladas em panos sujos de sangue, de horrível aparência. Manoel procura esconder as mãos atrás das costas, envergonhado. Fala em tom humilde:

– Espero que você não permaneça muito tempo por aqui. Eu, bem que mereço. E nem sei quando vou sair. Talvez até me mandem mais para baixo.

Anastácio arregala os olhos, sem entender. Manoel continua:

– Aqui, é uma espécie de região intermediária entre a Terra e o Umbral. Os que carregam culpas mais pesadas e ficam, é porque algo sustou sua queda. No meu caso, foram as preces das pessoas que curei.

Enraizado nos velhos hábitos do orgulho, Anastácio diz, com certo ar de superioridade:

– É... Quanto a você é fácil entender que esteja aqui. Você era médium, espírita, e todos nós sabíamos que começou a cobrar pelas curas que realizava.

Conclui com ar de reprovação:

– Você ganhou verdadeira fortuna com o uso da mediunidade.

Manoel baixa os olhos e fala em tom magoado:

– É verdade. E vocês não me disseram nada. Só falavam pelas costas. Principalmente você, tão zeloso pela pureza doutrinária. Eu era pobre, precisava manter a família. Aí, comecei a receber presentes e quando me dei conta, tinha ido longe demais.

Olha indignado para Anastácio e conclui, num rompante:

– Por que você não me disse nada? Eu achava que se estivesse tão errado assim, os companheiros me chamariam a atenção. Como ninguém me censurou... fui caindo mais e mais.

Sentindo-se arrastado para o turbilhão alucinante fala, quase num grito:

– Por que você não me repreendeu? Devia ter brigado comigo, até mesmo me desmoralizado, agredido... Teria sido bem melhor.

Anastácio baixa a cabeça, pondo-se a chorar amargamente. Aos poucos vai se acalmando, por força do cansaço em virtude daquela estranha dança. A música pára de novo e todos caem no chão, exaustos. Tropeça em algo e se vê junto a um ser estranho, sem forma, cuja vida se manifesta em batimentos cardíacos desordenados.

Horrorizado, grita:

– Mas o que é isso? Um abortado?... Essa, não!!! Desse aí, tenho certeza de não carregar nenhuma culpa. Nunca promovi nem permiti abortos.

Aquele ser estranho responde, com voz lamentosa:

– Eu fui levado a um centro espírita e fiquei esperando minha vez de ser atendido. Tinha certeza de que receberia alívio e poderia recompor meu corpo espiritual. Esperei com toda paciência enquanto você doutrinava um espírito que havia sido assassinado. Parece que era alguém muito importante e você passou a maior parte da sessão conversando com ele, fazendo perguntas e mais perguntas. Quando finalmente chegou a minha vez, era hora de encerrar e você não me deixou incorporar. Eu me desesperei e me agarrei à médium, mas você disse que era hora de encerrar e que ninguém mais poderia “receber” nenhum espírito. Eu fiquei tão revoltado, com tanto ódio de você, que fui arrastado para este lugar.

Perplexo, Anastácio diz:

– Ah, me lembro do caso. Mas não tive culpa. Se os dirigentes não cuidam da disciplina, a sessão vira bagunça.

A estranha figura responde, em tom humilde choroso:

– Eu não queria bagunçar nada. Só queria alívio para o meu sofrimento, que era grande demais...

Anastácio senta-se no chão, profundamente chocado, murmurando:

– Que situação! E eu que achava que seria recebido em Nosso Lar, quando desencarnasse. Tantos anos dedicado à causa. Que ironia! Em vez de Nosso Lar, este horrível Forró. No lugar do Ministro Clarêncio vir me receber, encontro um bando de estropiados e até um abortado! É demais! Não dá para agüentar.

Recompõe-se lentamente. O desespero e revolta dão lugar ao desalento. Continua:

– E o pior de tudo é essa sensação de culpa...

Olha para o abortado e fala, com o olhar perdido ao longe:

– O que será mais importante, a disciplina em nome da caridade... Ou a caridade em nome do amor?

A música recomeça e com ela Anastácio e os demais voltam a rodopiar, num louco e incontrolável frenesi, sem conseguirem parar. Quando finalmente silencia, Anastácio, vencido pelo cansaço, cambaleia e, pára não cair, agarra-se no cabelo de um mulher que está próxima. Ela dá um grito de dor, voltando-se para ele que, espantado, reconhece-a:

– Marieta! Você também está aqui?

Marieta fora uma das melhores palestrantes do movimento espírita local. De olhos arregalados pelo espanto, exclama:

– Anastácio? Nunca esperei que viesse para cá. Você... sempre tão certinho.

– É... nem eu esperava. E você, uma das melhores palestrantes que conheci, como é que veio parar aqui?

– Enganos, meu caro, enganos.

– Quer dizer que veio para cá por engano? Como é que pode?

– Não, não! O engano foi meu. Eu fazia belas e emocionantes palestras e me achava o máximo. Eu vivia muito ocupada em estudar a Doutrina, porque queria ter sempre na ponta da língua a resposta para qualquer pergunta. Sentia uma grande satisfação em poder “esmagar” os outros, num debate, com minhas argumentações, muitas vezes ferinas. Na verdade, Anastácio, eu amava a mim mesma, à minha vaidade. Não pratiquei a fraternidade. Não respeitei meu próximo, como deveria, não respeitei as suas opiniões, seus pontos de vista. Eu achava que era a dona da verdade, e não percebi que a verdade tem muitas facetas, uma para cada momento evolutivo. E vocês que me criticavam pelas costas nunca tiveram fraternidade suficiente para conversarem comigo e me mostrarem meus enganos.

Anastácio fica pensativo por alguns instantes. Finalmente, como degustando a ideia, fala lentamente:

– Você disse uma coisa que só agora estou conseguindo perceber. A Verdade tem muitas facetas, uma para cada momento evolutivo.

– Exatamente! E é por não entendermos isto que geramos tanta discussão, tanta discórdia, tanta divisão.

Reflete um pouco e conclui:

– Eu não fui alteritária.

– Autoritária?

– Não. Eu disse alteritária.

– Que é isso?

Marieta reflete por alguns segundos e explica:

– Ser alteritário significa ter uma relação fraterna e respeitosa com os que pensam diferente, ou são diferentes de nós. Entende?

Pensa um pouco, antes de concluir:

– Bezerra de Menezes disse que “A diversidade é uma realidade irremovível da seara espírita”. Quer dizer que nós precisamos construir a fraternidade nos meios espíritas, apesar das divergências, respeitando-as e procurando aprender com as diferentes opiniões.

Anastácio exclama, em tom de revolta:

– Você diz, precisamos. Como, precisamos? Estamos mortos... desencarnados... perdemos a nossa chance.

Põe-se a chorar, em grande desespero. Jerônimo se aproxima:

– Calma, Anastácio, calma.

A música fica mais alta e Anastácio é novamente arrastado por aquela força, misturando-se aos demais. Uma hora mais tarde, quando ela pára, encosta-se na parede, arfante. Os outros se estendem no chão, exaustos. Após curto descanso Jerônimo e Marieta se aproximam.

– Por que você não é arrastado pela música, assim como nós outros? – Pergunta a Jerônimo.

– Porque sou o administrador. Pedi aos planos mais altos para permanecer mais tempo por aqui. Necessito muito de reflexão, de buscar a minha verdade interior, e aqui posso encontrar muitos exemplos que me ajudarão no futuro.

– E é nessa verdade interior – intervém Marieta – que está o real caminho da evolução.

Silencia por instantes, meditativa. Em seguida, continua:

– Nós, seres humanos, costumamos não aceitar aqueles que não se encaixam em nossos modelos e, com isso, cuidamos de perceber as diferenças deles como sendo defeitos.

– Você agora disse uma dura verdade – exclama Jerônimo. – Queremos sempre que os outros se guiem pelos nossos parâmetros, sem respeitar a sua individualidade, o seu momento evolutivo. Por que sempre pretendemos ser os donos da verdade?

Com leve sorriso nos lábios, Marieta responde:

– Porque somos vaidosos. E então ficamos tão atentos vigiando severamente a melhora dos outros que deixamos de lado a única tarefa que cabe exclusivamente a nós mesmos, o nosso próprio crescimento interior.

– Você tem toda razão – assevera Jerônimo. De modo geral, sentimos verdadeira necessidade de fiscalizar os atos alheios.Em nosso orgulho, acreditamos que as falhas deles diminuem o peso das nossas.

Com um suspiro, Marieta exclama:

– Quanto engano, meu Deus! Quanto engano vivenciamos na Terra; quantas máscaras usamos, tentando esconder nossa própria consciência!

Apontando, espantado, na direção do núcleo do forró, Anastácio exclama:

– Mas aquele ali não é o Onofre?

– É ele mesmo – confirma Jerônimo.

Anastácio está cada vez mais surpreendido, de uma surpresa muito desagradável. Finalmente, pergunta:

– Como é que pode? Um líder espírita tão importante? Que teria feito de tão grave assim?

Com meio sorriso nos lábios Jerônimo explica:

– Um líder espírita importante. Você disse tudo. Um líder espírita precisa entender que a sua vida, suas atitudes, ações e também omissões são exemplos que ele passa e que muitos irão guiar-se por eles. A responsabilidade de um líder é infinitamente maior.

– Mas o Onofre sempre foi um bom exemplo, creio eu – retruca Anastácio.

– Engano seu. Ele era bom exemplo em muitos casos, em outros, não. Lembra aquela vez em que tentamos implantar reuniões voltadas à reforma interior, nos centros da nossa área de atuação?

– Lembro, sim. E essa reforma, ou esse crescimento, passaria a ser prioridade nesses centros. Também seriam implantados alguns recursos utilizados por Psicólogos e Terapeutas, inclusive oficinas, visando ajudar os participantes em sua evolução, mas o Onofre disse que essa não era função de uma instituição espírita; que não queria essas novidades e que bastava o estudo da codificação para alguém que pretendesse fazer a sua reforma interna.

– Sei disso. Lembro-me bem. Mas o que tem isso a ver...?

– O Onofre foi contra, não permitiu. E esse fato causou prejuízos evolutivosa todos nós e também aos centros que iriam participar.

– É verdade. E pensar que eu também fui contra.

– E, além disso, ele não soube construir um ambiente fraterno e alteritário nos centros que dirigiu. Era muito dado a críticas. Tudo ele criticava, desde as instituições até os companheiros de atividades. Nada escapava às suas cáusticas observações e isto gerava um ambiente pesado, um clima de hostilidade, inaceitável numa Casa espírita.

– É... eu lembro.Mas você falou em alteritário. Já ouvi essa palavra, mas ainda não sei exatamente o que significa.

Jerônimo sorri amavelmente e, fitando Anastácio com certo carinho, explica:

– Vejamos você mesmo como exemplo de falta de alteridade. Você sempre primou pela pureza doutrinária. Não era tanto por amor à causa espírita, mas principalmente para poder impor seus pontos de vista. Lembra? Em nome da pureza doutrinária cometeu muitos erros. Proibiu aquela reunião de Evangelho com idosos, promovido pela Iracema, que era psicóloga, só porque ela estava inserindo práticas como o relaxamento e algumas atividades de integração entre os membros do grupo. Não se preocupou em analisar os benefícios do relaxamento, nem a importância da integração entre aqueles velhinhos. Também não valorizou o que é o mais importante para o espírita e para qualquer ser humano.

Anastácio olha de forma interrogadora para Jerônimo, que continua:

– O crescimento interior. Não é essa a meta primordial do Espiritismo? Alteridade é isso, meu caro. É ter disposição para aceitar e aprender com os que são e pensam diferente de nós. Nos meios espíritas admitir a diversidade de opiniões e práticas, desde, é claro, que não fujam aos princípios básicos do Espiritismo. A alteridade não impõe, ela respeita.

Anastácio senta no chão, baixa a cabeça e fica meditativo. Uma mulher, cuja beleza se oculta por trás das rugas e das roupas amarfanhadas, senta-se a seu lado, dizendo:

– Pensei que você fosse demorar mais na Terra.

Surpreendido, Anastácio exclama:

– Suzana? O que faz aqui? Você, que entre outras atividades foi Presidente da nossa Casa, aqui, neste asqueroso forró?

Suzana fica pensativa por instantes. Finalmente, olhando Anastácio nos olhos, diz:

– Por isso mesmo, Anastácio, por isso mesmo. Pelo cargo que eu ocupava deveria ter tido muito mais humildade, mais fraternidade. Eu tinha todos os ensinamentos de Jesus na ponta da língua, mas na hora de praticá-los... O que eu falava não era condizente com as minhas atitudes, principalmente aquelas mais internas, do pensamento, dos sentimentos.

– Mas eu acho isso injusto. Castigos tão horríveis como este, para culpas ou faltas tão pequenas.

Com uma pontinha de ironia na voz, Suzana responde:

– Isto aqui não é horrível, não, meu caro. Horrível é o que tem mais lá embaixo. Este aqui é o setor das faltas menores. Aqui, estagiamos a fim de podermos perceber as nuances de uma conduta não fraterna; pequenos detalhes que não quisemos observar quando encarnados. Aqui, adquirimos consciência dos muitos males que provocamos com nossas atitudes. Veja, por exemplo, o caso da Silvia.

Apontando para uma jovem, diz:

– Aquela ali, de blusa amarela, é a Silvia. Ela era do “Centro Jesus de Nazaré”. Quando a Maria Eulália, uma trabalhadora da Casa, mãe de cinco filhos, adoeceu gravemente, nenhum dos companheiros foi visitá-la. Muito menos colocar-se a disposição para ajudar no que fosse possível. Todos simplesmente ignoraram a situação difícil da companheira.

– E por que só a Silvia veio para cá?

– Calma, amigo! Os outros ainda não desencarnaram.

Numa voz na qual transparecia revolta, Anastácio replica:

– Não, não pode ser! Nunca ouvi dizer que alguém tenha sido atirado no Umbral, só porque deixou de visitar um companheiro doente.

– O problema não está no fato de não terem ido visitar Maria Eulália, mas nafrieza que demonstraram com relação a uma companheira de atividade espírita. A Silvia também trabalhava na recepção, no centro. Ela recebia as pessoas com frieza, com certo ar de superioridade, quando deveria ser fraterna, acolher a todos com simpatia e calor humano.

– Você fala como se fosse fácil ser fraterno.

– Claro que não é fácil. Mas aqui eu tenho tido muito tempo para observar e refletir. E cheguei a uma conclusão interessante, que venho testando comigo mesma. E olha que os resultados são surpreendentes.

– Que conclusão é essa? – Pergunta Anastácio, curioso. Após instantes de silêncio, Suzana responde:

– Reflita comigo. Os espíritas fazem palestras, ouvem palestras, leem verdadeiras enxurradas de mensagens edificantes, de livros de teor evangélico, fazem reuniões de Evangelho... E se perdem nos muitos detalhes.

– Não estou entendendo.

– Todo esse esforço não visa à reforma interior?

A um aceno positivo de Anastácio, Suzana continua:

– Acontece que para a parte mais importante dessa reforma só é necessária uma única ação, que é básica, fundamental. Basta imprimir sempre em si mesmo, ou seja, desenvolver sempre um estado de espírito fraterno e contente.

Anastácio reflete um pouco e um leve sorriso vai tomando conta de seu rosto. Entusiasmado, exclama:

– Está aí uma coisa em que eu nunca tinha pensado. Se eu conseguir manter sempre um estado de espírito fraterno, não preciso me preocupar em me policiar, porque com sentimentos fraternos não vou praticar atos contrários às leis maiores. Meu Deus é uma coisa tão simples!

– Simples como as grandes verdades – exclama Suzana. – Digamos que você tem alguns valores negativos que deseja eliminar, como por exemplo: o orgulho, a vaidade, o desamor, a impaciência e a maledicência. Para conseguir algum resultado vai ter que estar sempre atento, policiando-se, para não praticar o orgulho, a vaidade, o desamor, a impaciência e a maledicência. Mas com a minha receita, basta você se ocupar apenas em desenvolver esses dois estados de espírito. Os resultados são muito mais amplos e profundos, porque você não combate os valores negativos, mas constrói os positivos, entende?

– Realmente – concorda Anastácio. Essa sua receita é um verdadeiro achado. Mas você falou em dois estados de espírito, a fraternidade e o contentamento. Por que este último?

– O contentamento é um verdadeiro elixir de vida. É fundamental para o equilíbrio do ser humano, a sua saúde e bem-estar. Imagine uma pessoa fraterna, mas triste, depressiva, espalhando vibração pesada por onde passa. Para mim, Espiritismo é luz para a mente e amor e alegria para o coração. Isto dá plenitude ao ser.

– Realmente, é impressionante! Vejo você, neste horrível forró, demonstrando serenidade e até mesmo alegria.

Um enfermeiro que se aproxima, ouvindo as últimas palavras de Anastácio, explica:

– Este “horrível forró” como você diz, é coisa nova no mundo espiritual. Ele existe em variados modelos, principalmente nos umbrais do Brasil. É um recurso fundamental na transição do movimento espírita para um patamar mais elevado de consciência, para uma nova era.

Manoel e Marieta se aproximam, desejosos de aprender. Jerônimo faz as apresentações:

– Este é o Bernardo, o enfermeiro que dá assistência neste núcleo. Este aqui é o Anastácio, recém-chegado da Terra. Os outros já se conhecem.

Bernardo olha com ar afetuoso para Anastácio, informando:

– Este tipo de reduto, ou asqueroso forró, como você disse, também é conhecido como incubadora da alma. Aqui acontecem as grandes transformações, os grandes aprendizados.

– É isso mesmo – intervém Suzana. – Somos assim como as sementes que são enterradas no seio da terra para começarem a germinar. Estamos enterrados aqui, para começarmos a transmutar nossa natureza inferior em luz. Descemos a este inferno, como primeiro passo a nos conduzir a níveis mais elevados de consciência.

Cada vez mais surpreendido, Anastácio retruca:

– Não entendi.

– Aqui é aquele momento em que começamos a perceber, com maior clareza, a nossa própria essência. É quando passamos a sentir intensamente a necessidade de vivenciar a nossa verdade mais profunda, sem nenhuma sombra de hipocrisia, sem qualquer máscara, sem subterfúgios.

– Ainda não estou entendo direito.

Gentilmente Bernardo se põe a explicar:

– Os espíritas com menores cargas de erros ou faltas vêm estagiar aqui, para poderem aprofundar-se mais em si mesmos, vasculhar as suas razões mais profundas, descer até às profundezas da própria consciência em busca da verdade sem máscaras.

Estranhando, Anastácio pergunta:

– Verdade sem máscaras? E existe alguma verdade mascarada?

Soa um apito mais parecido a um assovio e Bernardo se apressa em sair, fazendo sinal a Jerônimo, que continua as explicações:

– As religiões cristãs criaram o sentimento de culpa nas pessoas, para melhor poderem dominá-las. Como a culpa é um sentimento desagradável, todos cuidam de cobri-la com máscaras as mais diversas, a fim de poderem sentir-se melhor.

Suzana quebra o breve silêncio que se fizera, explicando:

– Aqui nos reunimos diariamente, assistidos por psicólogos. Eles nos ajudam a aceitar nossas inclinações negativas, como resultado natural das nossas longas elaborações reencarnatórias. Também nos auxiliam a nos auto-amar e, principalmente, a dinamizarmos nossos valores positivos. Isto é muito mais produtivo e ajuda a eliminar os sentimentos de culpa, que são muito prejudiciais.

– A ordem aqui – acrescenta Jerônimo – é o crescimento interior da criatura, e não o seu massacre sob o peso do carma. Nas nossas reuniões cada um fala de si mesmo, dos seus desacertos, quando na Terra, não para se culpar ou desculpar, mas para tentar entender melhor a si próprio.

– E é interessante observar – continua Suzana – que a maioria dos novatos declara-se inocente. Pela ótica deles, são realmente almas puras. Mas aqui são induzidos a mergulhar fundo nas próprias consciências, a procura das razões profundas para os seus atos. Isto porque muitos atos ou atitudes até mesmo louváveis, quando são tiradas todas as máscaras, mostram intenções escusas como a vaidade, a sede de poder, o despeito, a egolatria e até mesmo a omissão, em nome de falsos valores. Veja o seu próprio caso, caro Anastácio. Nas poucas horas em que está aqui, já mudou muitas das suas convicções, não é verdade?

– É verdade – confirma Anastácio. – Nunca me passou pela cabeça que eu usava máscaras. Mas agora estou vendo que usava.

Após instantes de silêncio pergunta:

– E essa música estridente, desagradável, essa força que nos obriga a nos movimentar numa dança grotesca?

– São as forças latentes nesta faixa vibratória e a sua manifestação pode ocorrer de várias formas – explica Jerônimo. – Aqui é nessa dança grotesca, porque obrigatória, onde os presentes vão gastando determinadas energias que precisam eliminar.

E tomando ares de quem vai falar algo importante, continua:

– Contam que no final do século XX, num memorável encontro no mundo espiritual, Bezerra de Menezes lançou as diretrizes para o terceiro período do Espiritismo, que se iniciou com o novo século. Esse deverá ser o período da ATITUDE, ou seja, a fraternidade e a alteridade, na prática, não apenas nas palavras.

Silenciou por instantes, continuando:

– É bem fácil observar como vem surgindo nos meios espíritas, embora de forma ainda muito tímida, uma nova mentalidade; grupos e pessoas muito preocupados com a evolução espiritual da comunidade e procurando meios que ajudem as pessoas nesse sentido. E aqui podemos dizer que é uma das salas da escola dos futuros espíritas, daqueles que decidirem engajar-se na construção da nova humanidade.

Com simpático sorriso Suzana esclarece:

– E olha que essa construção não é trabalho apenas para os espíritas. No mundo todo vem surgindo movimentos buscando mais fraternidade e alteridade em todos os relacionamentos.

Impressionado, Anastácio pergunta:

– E a prática da caridade... Onde fica?

– Fazer caridade pode ser merecimento, mas o mais importante é cuidar da evolução – responde Suzana, continuando em tom brincalhão:

– Não tem muito espírita que acha que fazendo caridade está ganhando bônus-hora e garantindo um espaço em Nosso Lar? Caridade é uma coisa, evolução é outra, entende? Na Terra, nos meios espíritas, pela grande dificuldade que representa a reforma interior, a maioria acaba substituindo-a por ações caritativas. Mas não é a mesma coisa. A nossa evolução não decola se não buscarmos, por todos os meios, a vivência dos valores ou dos conteúdos espíritas, transformando discurso em atitudes. Assim, a caridade que fizermos, será movida pelo amor.

– Só que transformar discurso em atitudes é justamente o mais difícil – retruca Anastácio.

Jerônimo interfere:

– Não é tão difícil assim – já se esqueceu da receita da Suzana?

– É verdade. Havia me esquecido. Como é mesmo?

– A receita básica é simples. Você precisa se preocupar apenas com uma única ação: estabelecer sempre em si mesmo, nos seus estados de espírito, o contentamento e a fraternidade. Depois, vai acrescentando outros valores relacionados ao conhecimento, à sabedoria etc.

Jerônimo olha intencionalmente para Suzana que balança a cabeça afirmativamente. Pensa um pouco, como a procurar as palavras e dirigindo-se a Anastácio, diz:

– A Suzana e eu estamos elaborando uma espécie de agenda mínima, que pretendemos repassar para os nossos irmãos reencarnados. Nessa agenda, seguindo orientações do Dr. Bezerra, vamos colocar os pontos principais a serem observados por quem deseja realmente evoluir.

– Nós acreditamos que um dos grandes entraves em nossa evolução – explica Suzana – está no fato de os valores negativos a serem transmutados em positivos são tantos, e multiplicarem-se em tantas nuances e detalhes que acabamos nos perdendo em meio a tudo isso. Mas se organizarmos uma agenda mínima com os pontos mais importantes, estaremos trabalhando o cerne da questão. Assim, fixando-nos em apenas quatro ou cinco pontos, será muito mais fácil cumprirmos um roteiro evolutivo que irá alavancar nosso crescimento interior, de forma bem mais segura e proveitosa.

Anastácio estava alegremente surpreendido. Sempre encontrara grandes dificuldades para transmutar valores negativos em positivos. Refletiu um pouco e comentou em tom triste:

– Se eu tivesse tido acesso a esse tipo de idéias, a essa agenda mínima de que vocês falam, certamente não teria vindo para este horrível lugar.

Silenciou por instantes e continuou:

– Nos últimos anos, venho desenvolvendo uma teoria que vem ao encontro do que vocês disseram. Tenho observado que o grande vilão da nossa evolução é a memória, ou melhor, a falta dela. Sempre que nos decidimos a proceder de tal ou qual maneira, em consonância com os ensinamentos do Evangelho e os ditames da consciência, só percebemos que falhamos depois da palavra dita, da emoção sentida ou do ato praticado. Aí é tarde. Mas se, de acordo com a ideia de vocês, pudermos memorizar os pontos fundamentais...

– Olha só Jerônimo – exclama Suzana, entusiasmada. Isso da memorização de que fala o Anastácio vem complementar nossa idéia. Observe só a importância disso! Com uma agenda mínima, com apenas quatro ou cinco pontos fundamentais, será bem fácil criar procedimentos que ajudem a gerar memória; que ajam como lembretes.

– É isso mesmo! – Diz Jerônimo, sorridente. E dirigindo-se a Anastácio:

– Podemos “roubar” sua ideia?

– Claro que podem. Será um grande prazer para mim, poder contribuir com algo tão fundamental para a nossa evolução.

– E o melhor – conclui Jerônimo, exultante – é que vamos levar em breve essa agenda mínima para os reencarnados. Já está tudo mais ou menos acertado.

– E você vai colaborar conosco – afirma Suzana.

Antes que Anastácio possa dizer algo, Bernardo se aproxima e o segura pelo braço, dizendo gentilmente:

– Vem. Quero mostrar-lhe algo.

Aproximam-se de uma espécie de janela e Bernardo pergunta:

– Está vendo aquele pavilhão?

– Sim, estou vendo...

– É um pavilhão hospitalar – explica Bernardo,

Estranhando, Anastácio comenta:

– Tenho a impressão de que estão olhando para mim, como se eu pudesse ajudá-los.

– Não estranhe Anastácio – diz Jerônimo. – Estes doentes são apenas parte daqueles que deixaram de ser atendidos, por sua culpa.

Muito surpreendido e com uma pontinha de azedume, Anastácio retruca:

– Por minha culpa? Só pode ser engano. Eu sempre procurei ser um bom espírita. Bem... quero dizer, eu dediquei a minha vida inteira ao Espiritismo e, principalmente, à doutrinação de espíritos sofredores.

– Isso é verdade – confirma Bernardo. – Mas a sua tarefa sofreu muitos prejuízos por causa da sua vaidade e orgulho.

Anastácio abre a boca para retrucar mas se cala, enquanto Bernardo continua:

– Sim, Anastácio. Sou eu o enfermeiro que conduz os espíritos doentes ao socorro mediúnico no Centro onde você trabalhava. Os doentes deste pavilhão deveriam ter sido socorridos no grupo que se desfez, em razão de sua vaidade e falta de fraternidade.

Num impulso indignado, Anastácio exclama:

– Mas eu não sou vaidoso.

– É sim, meu caro – afirma o enfermeiro. – Você foi sempre considerado o melhor doutrinador da casa e essa ideia lhe subiu à cabeça. No início, quando entrava na sala das reuniões suas vibrações eram de amor e desejo de ajudar. Mas aos poucos foi se empolgando com a admiração que sua doutrinação provocava em algumas pessoas e em si mesmo. E aí, quando entrava na sala, já não tinha mais aquela vibração de amor, de afeto. Você só ficava pensando em como falaria em tais e quais situações. Seu pensamento, em vez de buscar o Alto, ficava girando em torno dos temas brilhantes da doutrinação e, como você era o principal responsável pelo grupo, este começou a decair, até que se extinguiu. Se você e o grupo tivessem se empenhado profundamente na reforma interior, na construção de atitudes verdadeiramente fraternas...

Anastácio baixa a cabeça, angustiado. Após alguns instantes murmura:

– Meu Deus! Eu que li tantos depoimentos de espíritos que esperavam ser recebidos com honras no mundo espiritual, mas se deparavam com realidades amargas... Nunca pensei em me ver numa situação como esta. Oh, arrependimento profundo... como machuca! Ah, se eu pudesse voltar à vida! se pudesse...

Atira-se de joelhos, baixa a cabeça e balbucia com humildade:

– Meu Deus, tem piedade de mim! Tem piedade de mim! Tem piedade de mim!

Com o rosto molhado de pranto repete, angustiado:

– Tem piedade de mim! Me deixa voltar a viver... Ah, meu Deus, me ajuda! Me ajuda! Tem piedade de mim!

Anastácio sente-se sacudido por mãos invisíveis. Já não vê o enfermeiro nem o ambiente onde estivera. Em meio ao nevoeiro formado pelas lágrimas, vê o rosto da esposa e percebe que é ela quem o sacode, enquanto diz:

– Anastácio! Acorda! Para com isso. Você está chorando... Deve ter sido algum pesadelo terrível...

Anastácio custa a entender que estivera sonhando. A esposa procura confortá-lo:

– Calma, querido, você teve um sonho mau. Foi só um sonho mau.

– Sonho mau – repete automaticamente.

Já completamente acordado, levanta-se de um pulo e começa a rir e a chorar ao mesmo tempo.

– Sonho mau? – Pergunta num rompante. Foi o melhor sonho que já tive... O mais importante!! O mais importante de todos!

Ajoelha-se novamente e, ante o espanto da esposa, levanta o rosto e as mãos para o alto, exclamando:

– Obrigado, meu Deus... Obrigado... Obrigado...

Mais calmo, comenta:

– Agenda Mínima Espírita... Como será que vai chegar?



sábado, 9 de fevereiro de 2013

Defenda-se




Não converta seus ouvidos num paiol de boatos.
A intriga é uma víbora que se aninhará em sua alma.

Não transforme seus olhos em óculos da maledicência.
As imagens que você corromper viverão corruptas na tela se sua mente.

Não Faça de suas mãos lanças para lutar sem proveito.
Use-as na sementeira do bem.

Não menospreze sua faculdades criadoras, centralizando-as nos prazeres fáceis.
Você responderá pelo que fizer delas.

Não condene sua imaginação às excitações permanentes.
Suas criações inferiores atormentarão seu mundo íntimo.

Não conduza seus sentimentos à volúpia de sofrer.
Ensine-os a gozar o prazer de servir.

Não procure o caminho do paraíso, indicando aos outros a estrada para o inferno. A senda para o Céu será construída dentro de você mesmo.




André Luiz

(Mensagem retirada do livro "Agenda Cristã" psicografia de Francisco Cândido Xavier)

Aparências


Não acuse o irmão que parece mais abastado. Talvez seja simples escravo de compromissos.

*

Não condene o companheiro guindado à autoridade. É provável seja ele mero devedor da multidão.

*

Não inveje aquele que administra, enquanto você obedece. Muitas vezes, é um torturado.

*

Não menospreze o colega conduzido a maior destaque. A responsabilidade que lhe pesa nos ombros pode ser um tormento incessante.

*

Não censure a mulher que se apresenta suntuosamente. O luxo, provavelmente, lhe constitui amarga provação.

*

Não critique as pessoas gentis que parecem insinceras, à primeira vista. Possivelmente, estarão evitando enormes crimes ou grandes desânimos.

*

Não se agaste com o amigo mal-humorado. Você não lhe conhece todas as dificuldades íntimas.

*

Não se aborreça com a pessoa de conversação ainda fútil. Você também era assim quando lhe faltava experiência.

*

Não murmure contra os jovens menos responsáveis. Ajude-os, quanto estiver ao seu alcance, recordando que você já foi leviano para muita gente.

*

Não seja intolerante em situação alguma. O relógio bate, incessante, e você será surpreendido por inúmeros problemas difíceis em seu caminho e no caminho daqueles que você ama.

* * *


Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Agenda Cristã.
Ditado pelo Espírito André Luiz.
Edição de Bolso. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1999.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Espiritismo e seus dissidentes

Existem vários espiritismos?

Todo mundo diz que segue Allan Kardec, que a sua diretriz é a Obra Básica que nos foi trazida através de Kardec, porém, assim como existem os protestantes em diversas ramificações, existem também os espíritas em várias vertentes, cada um se achando o dono exclusivo da verdade e querendo que a sua visão prevaleça.

Eu mesmo já cometi, várias vezes, o equívoco de afirmar, em matérias minhas, sobretudo quando dirigidas à imprensa quando escreve alguma coisa ligada ao Espiritismo, que a nossa doutrina é uma só, que não existe “Espiritismo do sétimo dia”, “Espiritismo adventista” e nem espiritismo A, B, C ou D. Cheguei, inclusive, a criar caso quando alguém tenta vincular Umbanda com Espiritismo, teimando em afirmar que o Espiritismo é único e é indivisível.

Mas não é verdade. De fato a obra básica espírita é uma só, assim como o Evangelho de Jesus é também um só, mas...

Do mesmo jeito que os protestantes fracionaram o protestantismo, fazendo igrejas a bel prazer de cada um, os espíritas também fracionaram o Espiritismo, criando centros conforme as cabeças de cada um.

Vamos tentar, então, relacionar diversos tipos de espiritismos que você vai perceber que de fato existe.

Espíritas Igrejeiros 

São aqueles que vêem o Espiritismo apenas como uma religião, nada mais do que religião e somente religião. As suas práticas se constituem apenas em palestras, preces, passe e água magnetizada. Mesmo assim, as palestras, invariavelmente, têm sempre temas como “parábola do semeador”,“parábola da figueira”, “visita de Jesus a Zaqueu”... e temas outros com esse tom. Tem que ser com cara de igreja mesmo. Sempre trazem, na parede, a inscrição “O silêncio é uma prece”. O que mais se ouve? “Psiu!”, “Fale baixo”...

O espírita igrejeiro, geralmente, para justificar o seu desconhecimento nos outros aspectos da doutrina, qualifica as outras pessoas que falam sobre diversos temas no centro, como “cientificistas” e que querem tirar Jesus do Espiritismo.

Por não poderem acompanhar a proposta de Kardec, quanto a pesquisa, a observação e o acompanhamento dos avanços da Ciência, postam-se apenas rezando, rezando e rezando porque entendem o Espiritismo como uma doutrina de rezação.

Espíritas do “me disseram” 

O espírita tipo “me disseram” é aquele que toma decisões e tira conclusões com base no “me disseram”.

Ele proíbe livros porque “me disseram que este livro não é bom”, proíbe expositores porque “me disseram que ele não é bom e que é polêmico”, condena a CEPA porque “me disseram que ela quer tirar Jesus do Espiritismo”... E assim vai, em absoluta ausência de racionalidade, de justiça e de bom senso, decidindo com base no “me disseram”.

Mas... Você procurou verificar com os seus próprios olhos, analisando com a sua própria inteligência (se é que tem), o livro, o autor ou o expositor?

– “Ah, vamos deixar este assunto pra lá, vamos evitar polêmicas, evitar confusão, porque isto não constrói nada.”

Sempre sai pela tangente, porque não tem estrutura para levar questionamento nenhum em frente e nem consegue vê alguém identificando a sua irresponsabilidade.

Espírita defensor e patrulhador da “pureza doutrinária”

Este é uma figura. Somente ele conhece a Doutrina, mais ninguém. Geralmente se comporta como se tivesse uma procuração, outorgada pelo próprio Allan Kardec, reconhecida em cartório, com amplos poderes para fiscalizar o que se faz, o que se diz e o que se escreve sobre o Espiritismo.

Nos pontos mais questionáveis da Doutrina, ele sempre acha que a sua interpretação é a única correta e que qualquer outro espírita é absolutamente analfabeto quanto à capacidade de interpretar. Ninguém mais tem condições de estudar e entender a doutrina, ninguém tem acesso às obras básicas e à Revista Espírita, ninguém tem capacidade de pesquisar, de experimentar e de observar nada, só ele.

Nunca aparece quando os verdadeiros detratores do Espiritismo surgem nos veículos de imprensa para caluniarem, denegrirem, distorcerem, mentirem e promoverem agressões contra a nossa doutrina, a exemplo dos padres Quevedo, Jonas Abib e milhares de pastores ditos evangélicos, mas sempre se apresentam como valentes, contundentes e verdadeiros gladiadores armados com todas as armas, quando é outro espírita que diz ou escreve alguma coisa que deixa alguma dúvida ou seja questionável, por mais que esse espírita seja uma pessoa digna, honrada, decente e com história das bons serviços prestados ao Espiritismo. É repugnante essa covardia, mas é o que acontece.

Geralmente, para se justificarem, utilizam-se as instruções que de fato existem na obra básica, sugerindo que os enganos e as fraudes, em nome do Espiritismo, devem ser desmascaradas. Só que se auto-consideram os arautos do conhecimento absoluto espírita, que são eles que devem desmascarar os outros e que enganos e fraudes são exatamente tudo aquilo que não se pratica exatamente conforme as SUAS interpretações pessoais da doutrina. Fora de mim, não há verdade.

Espírita da caridade esmola

Este resume a sua conduta espírita na ideia de dar sopa para pobre, distribuir farnéis e doar roupas velhas e imprestáveis, que ninguém quer mais usar, para os pobres. Na sua concepção, Caridade se resume a isto, visto que não consegue distinguir o que é Caridade e o que é esmola.

Não entende que a Caridade é para ser praticada para com todas as criaturas, independente de nível econômico, inclusive e principalmente a ricos perturbados espiritualmente.

Na sua cabeça, implicitamente, deve pairar a ideia de que fazendo isto estará muito bem com Jesus, numa boa com a Espiritualidade Superior e com garantia de espaço no Ministério da União Divina, do Nosso Lar.

Espírita Chiquista
Este vê o nosso querido Chico Xavier como São Chico Xavier. Chega até a dizer que o papel do Chico é mais importante que o de Kardec, embora o próprio Emmanuel tenha recomendado ao próprio Chico a ficar sempre com Kardec, caso surgisse alguma dúvida nos seus ensinamentos.

Os livros do Chico não são nem considerados como complemento às obras básicas e sim as próprias obras básicas. Para qualquer iniciante na doutrina, recomenda que leia o “Nosso Lar” e não “O que é o Espiritismo” e “O Livro dos Espíritos”.

Qualquer outro médium que pudesse surgir e adquirir alguma projeção nacional, necessariamente era considerado como concorrente do Chico e até plagiador do Chico, posto que o “nosso santo é único e inimitável”.

Neste segmento você vê muita gente querendo falar igual ao Chico, imitar a humildade do Chico (apenas imitar, não vivenciar) e fazer uma verdadeira idolatria ao venerando médium mineiro.

Espírita Franciscano

Estes querem dar um ar de Francisco de Assis ao Espiritismo, no sentido de querer condenar tudo o que é material. Condenam principalmente o dinheiro, porque vêem a moeda sempre como algo pecaminoso, obsessivo, proibitivo e passaporte para o inferno.

Embora, nas suas vidas particulares, não conseguem fazer nada sem dinheiro, não conseguem manter os seus lares sem dinheiro, não conseguem se alimentar, se vestir, se educar, se transportar... sem dinheiro, acham que o centro espírita pode fazer tudo sem dinheiro.

Qualquer evento ou iniciativa que uma instituição espírita venha a fazer, para angariar recursos para sustentar e manter sua obra, é qualificado como “industrialização dos eventos espíritas” ou só conseguem enxergar as iniciativas como pretensão de alguém querer “ficar rico, à custa da doutrina”.

Chegam a um nível de intolerância absurdo e não pensam duas vezes nem em atacar nomes considerados respeitáveis no Espiritismo e que possuem obras que não deixam dúvidas quanto às suas condutas morais.

O pior é que não conseguem apontar algum meio para os centros e instituições espíritas bancarem as suas obras. Sempre fogem do assunto quando perguntados sobre isto. Deveriam pelo menos ensinar algum milagrezinho para materializar recursos, não é verdade?

Espiritismo Febeano 

Este é discípulo da FEB e seguidor fervoroso das determinações das Federações Estaduais, USES e Casas Federativas.

Do mesmo jeito que católicos vêem as decisões do Vaticano como infalíveis, indiscutíveis e inquestionáveis, estes, também, vêem as decisões tomadas pelas diretorias das federações como infalíveis e sagradas.

Se anulam como criaturas inteligentes, que também tem cérebro para pensar e que possuem, também, as obras básicas e todo o ensinamento de Kardec para consultar e raciocinar.

Alguns chegam ao cúmulo de afirmar:

– “Eu sei que não está certo, sei que não é o melhor caminho, mas eu tenho que obedecer, porque não quero ser indisciplinado e quero evitar problemas”.

– “Mas você não é membro da diretoria da casa? não tem direito a falar nada e nem a ter opinião?”

– “Não me comprometa, eu prefiro ficar na minha, não me meta em confusão”.

No fundo está dizendo: “Eu não sou besta para colocar em risco o meu cargo na diretoria”.

A coisa funciona mais como um processo de ditadura: Discordou do regime? ponham pra fora.

Espiritismo Esotérico 

Este é aquele que permite tudo no seu centro espírita. Pelo fato da Cromoterapia ser algo bom (de fato é) ele acha que tem que implantar no centro espírita. Se alguém diz que é bom colocar uma pirâmide e deitar as pessoas embaixo, para tomar passe, ele coloca. Se alguém recomenda que as pessoas devem tirar os sapatos para entrar no centro, todos têm que tirar os sapatos. Mulher se senta de um lado e homem de outro, as palmas das mãos têm que ficar para cima, na hora de receber o passe, (o magnetismo do passe entra é pela palma da mão). Alguns acham que devem manter a Bíblia sobre a mesa, forrada com toalha branca, aberta no Salmo XXIII.

E assim vão inventando um monte de coisas que acham bonitinhas e adaptando à prática espírita.

Espírita cientificista 
Este existe também. É aquele que acha que o Evangelho não deve ser estudado no centro. Ele entra também num radicalismo, porque acha que, pelo fato do centro não dever ser igrejeiro, necessariamente não se deve estudar o Evangelho, o que não tem o menor sentido, posto que oaspecto moral da doutrina, cujo melhor modelo é o Evangelho, não pode e nem deve ser desprezado nunca. Falei em ASPECTO MORAL, o que não quer dizer que isto signifique fazer do espiritismo uma igreja.

O estudo moral da doutrina é algo que deve ser prioritário e levado muito a sério, em qualquer centro espírita, tenha ele a visão que tiver, principalmente com objetivos de fazer com que pessoas deixem de praticar tantos atos de imoralidade, embora sutis, inclusive em nosso meio.

Espírita Herculanista 
Do mesmo jeito que o Chiquista adota o Chico Xavier como São Chico, o Herculanista também vê o grande Herculano Pires como São Herculano. Nem a minha querida amiga Heloísa Pires, espírita notável pela sua racionalidade, vê o seu querido pai desta maneira, embora fale dele com carinho e o respeito que ele verdadeiramente merece, pelo que representa na história do Espiritismo.

Já ouvi um cidadão dizer, num bate papo na FEESP, que Herculano superou Kardec e todo mundo que estava em volta, no momento, concordou com ele.

Processaram a canonização, também, no velho pai da Heloísa.

Espírita de eventos 

É aquele que a gente só encontra nos eventos.

– “Oi, que bom te ver. Beijo no coração”. Adorei a palestra do Divaldo! Amei a palestra do Medrado! Maravilha aquela palestra do Raul! Que beleza o doutor Sérgio Felipe!

A coleção de crachás de eventos que deve ter em casa, deve ser enorme.

Espírita difamador

Este é aquele que, quando o seu centro não aceita um determinado palestrante e vê que outro centro aceita, faz de tudo para queimar o palestrante, ligando para o outro centro para falar mal dele, mandando e-mails difamando-o, tecendo comentários negativos sobre ele pra todo mundo, se empenhando com todo “amor”, toda “caridade” e com muita “fraternidade” para apagar a imagem da pessoa. Mas isto com muito “amor” mesmo e pela Doutrina! Sabe como é que é, né?

Não se percebe contaminado pelo terrível veneno da maledicência.

E ainda diz que está fazendo pela Doutrina.

Os mais perversos carrascos da inquisição também diziam que os seus assassinatos eram em nome do Cristo.

Espiritismo sabor velório

É aquele que faz do centro espírita um ambiente triste, sem alegria nenhuma, lúgubre e aquela coisa sem um pingo de graça.

Ninguém pode sorrir, não pode ter música, todo mundo tem que falar baixo, muito “psiu”, cuidado até com o pisar no chão, ninguém pode abraçar ninguém, principalmente homem a mulher, em nome do “respeito”, expositor que faz a platéia rir demais não é um expositor sério e deve ser evitado, as cores das roupas têm que ser sóbrias, a toalha da mesa tem que ser branca, os tons de vozes dos que falam tem que ser sempre na base do “Muita Paz, meu irmão”, ninguém pode aplaudir ninguém.

Jamais elogiam quem quer que seja, por mais meritório que seja o seu trabalho, porque a tal “seriedade” anula a educação, a elegância e os bons princípios humanos.

Nos dias de hoje nem nos velórios se vê mais esse tipo de clima, uma vez que muita gente já canta em velório, conta piada, toca violão, dão gargalhadas e até batem palmas para o defunto, na hora do sepultamento.

Espiritismo sem espíritos 

São aqueles que, sob a argumentação de que “a época dos fenômenos já passou”, continuam a ver o intercâmbio mediúnico como fenômeno, e daí passam a evitar as mediúnicas. Nunca, ou apenas raramente, se pratica reunião mediúnica na casa, mesmo assim com uma meia dúzia de participantes, apenas, em tempo reduzidíssimo, excessivamente formal, e, em maioria, apenas é permitida a comunicação de alguns espíritos sofredores. Os espíritos bons, amigos da casa, nem se dispõem a aparecer para conversar por causa do excesso de limitações, principalmente de tempo.

Quem quiser observar isto, na prática, pode observar que vai perceber exatamente isto que estou a dizer.

O interessante é você observar a cara dos que atuam como “doutrinadores” de espíritos sofredores. São de uma bondade impressionante.

Se falar em evocação de espíritos, então, é um “Deus nos acuda!”. Mesmo tendo o Allan Kardec feito isto, durante toda a sua vida de espírita, não há argumento que convença, porque a disposição de fazer Espiritismo sem espíritos é grande demais. É espiritismo sem espíritos e também sem Kardec.

Espiritismo conforme a cabeça do dono

Este é interessante. Tudo é feito, conforme o nível de conhecimento da pessoa que manda. Em outras palavras: o dono ou a dona do centro. É isto mesmo! em muitos centros espíritas tem a pessoa QUE MANDA. Seu Fulano o dona Fulana.

Se for um dirigente, cujos conhecimentos doutrinários não passam do hábito de abrir o Evangelho “ao acaso” (sempre no meio), ele faz de tudo para não permitir que vá falar naquela casa qualquer voz que venha a falar sobre aspectos mais aprofundados da doutrina, porque é algo que ele não conhece, o que lhe faz correr o risco dos frequentadores perceberem que ele não sabe nada e que tem muito mais gente que sabe muito mais do que ele.

Se um expositor, por exemplo, fizer uma exposição sobre algo da Revista Espírita, absolutamente coerente com Kardec, coisa que ele não conhece, obviamente, com certeza criará o maior problema, porque “fora da minha verdade não há salvação”.

Foi exatamente por este motivo que muitos condenaram e proibiram as obras do fantástico e extraordinário Dr. Hernani Guimarães Andrade, Dr. Henrique Rodrigues e de vários outros nomes maravilhosos da nossa história.

Muitas vezes no centro não tem nem livraria, para o frequentador não ler muito e ficar com seu conhecimento restrito ao que o DONO do centro diz.

Esse tipo de centro fica apavorado quando sabe que os seus frequentadores estão vendo canais de TV Espíritas, porque sabe que eles estão vendo novas ideias e exposições de espíritas bem mais preparados. Ele não quer expositores que tragam ideias mais profundas, sob a argumentação de que são polêmicos. Na realidade falta-lhe competência para discutir com aqueles os quais qualifica assim.

Se você se aprofundar bem nas averiguações, vai perceber porque muitos odeiam o elemento, ou os elementos, que inventou esse negócio de levar Espiritismo ao grande público pela televisão, com imagem e som entrando nas casas das pessoas, e também resolveu colocar revista espírita nas bancas de todo o Brasil, inclusive mostrando muitas bobagens que se praticam em nome do Espiritismo.

Enfim, são vários tipos de espiritismos que existem por aí, exatamente do mesmo jeito que existem as ramificações nas igrejas evangélicas.

Há também os espíritas inimigos

Inimigos da FEB, inimigos da CEPA, inimigos de Roustaing e de quem lê sua obra, inimigos de Pietro Ubaldi, inimigos de Ramatis, inimigos dos eventos espíritas, inimigos de Divaldo, inimigos de Medrado, inimigos de quem questiona, inimigos de quem não tem papas na língua, inimigos de quem propõe fazer um movimento espírita sem donos... Inimigos de tudo.


Mas tem também os espíritas autênticos

Aqueles que são sempre o que são, sem qualquer preocupação em teatralizar comportamentos para os outros verem. Que são alegres nos centros, do mesmo jeito que são em suas casas e em qualquer lugar. Sorriem, brincam, dão gargalhadas e jamais perdem o humor e o bom astral, só porque estão no centro. Não se importam se as pessoas se abracem e até se beijem nos centros, porque sabem que isto é gesto de carinho e não de desrespeito. Fala-se em tom de voz normal, no centro. Realizam as mediúnicas conversando naturalmente com os espíritos como pessoas normais, apenas sem os corpos físicos, e não como defuntos. Jamais condenam outros espíritas e nem pessoa alguma, mesmo se ela cometer algum equívoco. Jamais admitem qualquer tipo de censura, boicote, sabotagem ou qualquer ato bandido, em nome do Espiritismo.

Entendem que Caridade não é esmola e não se resume apenas em sopa pra pobre, devendo ser aplicada também e principalmente numa conversa dirigida mesmo a um rico que possa ter conduta equivocada, pensar em suicídio, em aborto e em outras práticas infelizes.

Jamais se acham donos da verdade, jamais saem a patrulhar o comportamento dos outros ou o que os outros dizem ou escrevem.

Jamais vivem a condenar as iniciativas para angariar recursos para a casa, porque não são espíritos que trazem complexos de altas picaretagens praticadas em encarnações passadas ou talvez nesta.

Respeitam os direitos de expressão e todos os outros direitos que o seu semelhante tem.

Não admitem conceber como inimigos aqueles que pensam em contrário.

Não se comportam, jamais, como donos do centro nem donos do Espiritismo.

Têm inteligência suficiente para entender que uma pessoa deve ser analisada pelo seu TODO e não apenas por detalhes, e que um histórico de décadas de trabalho de alguém, no Espiritismo, não pode ser apagado por um equívoco dito ou escrito.

Não são “oito ou oitenta”, radicais extremistas, e entendem que quando alguém está dando uma sugestão à casa ou até discordando de algum procedimento, não está necessariamente querendo bagunçar, praticar indisciplina e nem fazer o que quer dentro da instituição.

Jamais condenam uma obra inteira ou uma outra pessoa, por causa de uma ou outra citação que possa deixar dúvidas ou mesmo ser equivocada. A não ser que essa pessoa incite a prática de crimes, assassinatos, torturas, etc... Ao semelhante.

Exemplifica e vivencia o Espiritismo e não apenas vive a pregar teorias para OS OUTROS praticarem.

Se fala em perdão, na tribuna do seu centro, certamente deve ter a coerência de perdoar. Se fala em dignidade, honradez, decência e comportamento moral, não abre mão, jamais, de vivenciar tudo isto.

Que todos entendamos, então, qual o tipo de Espiritismo que queremos para nós.



Alamar Régis Carvalho



Fonte://redevisao.net/default.php?page=variosespiritismos

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Reencarnação para criança - Maurício de Souza


A reencarnação observada através dos personagens de maurício de Souza, a Turma da Mônica, sob um prisma bem humorado e verdadeiro.

UMBRAL


Em 1943, André Luiz, o médico que se tornou conhecido psicografando livros pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier, trouxe a público o significado dado à palavra na colônia espiritual “Nosso Lar”, onde passou a viver alguns anos depois de seu desencarne.

Em seu livro também chamado “Nosso Lar”, ele conta como ouviu falar do Umbral pela primeira vez, quando o enfermeiro Lísias lhe dava as primeiras informações sobre a colônia e descreveu-o como região onde existe grande perturbação e sofrimento e para a qual a colônia dedicava atenção especial.

Desde então, a palavra Umbral, escrita com inicial maiúscula, como o fez André Luiz no livro “Nosso Lar”, tomou significado especial, principalmente entre os espíritas, designando a região espiritual imediata ao plano dos encarnados, para onde iriam e onde estariam todos os espíritos endividados, perturbados e desequilibrados depois da vida.Com esta conotação a palavra difundiu-se muito e transformou-se num quase sinônimo do Inferno e do Purgatório dos católicos, com localização geográfica, tamanho, etc., conceito este que o próprio Allan Kardec, codificador do Espiritismo, já havia desmistificado em suas obras, mais de 80 anos antes, especialmente em “O Livro dos Espíritos”.

Como vemos pelas respostas dos espíritos a Kardec, o inferno e o paraíso não passam de estados de espírito, condição moral de sofrimento ou felicidade a que estão sujeitos os espíritos por suas próprias atitudes, pensamentos e sentimentos durante a vida encarnada e depois dela. E é bom lembrar que espíritos somos todos, encarnados e desencarnados, vivendo cada um o seu inferno e o seu paraíso particulares. O que nos diferencia dos espíritos desencarnados é apenas o fato de estarmos temporariamente presos a um corpo denso de carne. De resto, somos absolutamente iguais a eles, com desejos, opiniões, frustrações, alegrias, defeitos e qualidades.

Na verdade, a figura geográfica e espacial do inferno dos católicos serviu de molde aos espíritas para que melhor visualizassem o que seria o Umbral, assim como o inferno da Igreja Católica foi tomado emprestado e adaptado do inferno dos povos pagãos para compor os mitos de inferno e paraíso.Se não existe inferno ou purgatório porque haveria de existir o Umbral com localização, medidas, coordenadas, etc.?

Tudo o que existe no plano espiritual é criado pela mente dos espíritos encarnados e desencarnados. Sempre que pensamos nossa mente dispara um processo pelo qual somos capazes de moldar as energias mais sutis do universo, criando formas que correspondem exatamente àquilo que somos intimamente.

Extremamente apegados ao mundo material, nada mais natural que, mesmo estando fora dele, queiramos tê-lo novamente quando desencarnados. É aí que nossa mente entra em ação, criando tudo o que desejamos ardentemente. E várias mentes desejando a mesma coisa juntas têm muito mais força para criar.A grande diferença é que, no mundo físico, podemos embelezar artificialmente o nosso ambiente e a nossa aparência, enquanto que no plano astral isso não é possível, pois lá todos os nossos defeitos, mazelas, falhas, paixões, manias e vícios ficam expostos em nossa aura, exibindo claramente quem somos como consciências e não como personalidades encarnadas.

No Umbral, tudo o que está fora de nós é conseqüência do que está dentro. Tudo o que existe em nosso mundo pessoal e nos acontece é reflexo do que trazemos na consciência. Assim, o Umbral nada mais é que uma faixa de freqüência vibratória a que se ligam os espíritos desequilibrados, cujos interesses, desejos, pensamentos e sentimentos se afinizam.

É uma “região” energética onde os afins se encontram e vivem, onde podem dar vazão aos seus instintos, onde convivem com o que lhes é característico, para que um dia, cansados de tanto insistirem contra o fluxo de amor e luz do universo, entreguem-se aos espíritos em missão de resgate, que estão sempre por lá em trabalhos de assistência.Alguns autores descrevem o Umbral como uma seqüência de anéis que envolvem e interpenetram o planeta Terra, indo desde o seu núcleo de magma até várias camadas para fora de seus limites físicos.

O que acontece é que os espíritos se reúnem obedecendo, apenas e unicamente, à sintonia entre si e acabam formando anéis energéticos em torno do planeta, ou melhor, em torno da humanidade terrena, pois ela é parte da humanidade espiritual que o habita e é também o foco de atenção de todos os desencarnados ligados a ele.

As camadas descritas em alguns livros são mais um recurso didático para facilitar o entendimento e o estudo do mundo espiritual, pois não há limites precisos entre elas, assim como não há divisas exatas entre um bairro e outro de uma mesma cidade, ainda que eles sejam de classes sociais bem diferentes.

Esse mesmo mecanismo de sintonia é o que cria regiões “especializadas” no Umbral, como o Vale dos Suicidas, descrito por Camilo Castelo Branco, pela psicografia de Yvonne A. Pereira, em seu livro "Memórias de um Suicida".

Espíritos com experiências de suicídio, vivendo os mesmos dramas, sofrimentos, dificuldades, agrupam-se por pura afinidade e formam regiões vibratórias específicas. Assim também acontece com faixas energéticas ligadas às drogas, ao aborto, aos distúrbios psíquicos, às guerras, aos desequilíbrios sexuais, etc.Apesar de toda perturbação e desequilíbrio dos espíritos que vivem no Umbral, não devemos nos iludir. Existe muita disciplina, organização e hierarquia nos ambientes umbralinos.

É o que nos mostra, por exemplo, o espírito Ângelo Inácio, pela psicografia de Robson Pinheiro, em seu livro "Tambores de Angola", e o espírito Nora, pela psicografia de Emanuel Cristiano, em seu livro "Aconteceu na Casa Espírita". Vemos ali o quanto esses espíritos podem ser inteligentes, organizados, determinados e disciplinados em suas práticas negativas, criando instituições, métodos, exércitos e até cidades inteiras para servir aos seus propósitos.

É preciso que compreendamos que todos nós já estamos vivendo numa dessas “camadas” de Umbral que envolvem a Terra e que todos nós criamos o nosso próprio Umbral particular sempre que contrariamos as leis divinas universais, as quais podem ser resumidas numa única expressão: amor incondicional.Mas o Umbral não é um mundo só de desencarnados. Muitos projetores conscientes (encarnados que fazem projeções astrais conscientes) narram passagens por regiões escuras e densas, semelhantes às descrições de André Luiz em "Nosso Lar".

Todos os encarnados desprendem-se do corpo físico durante o sono e circulam pelo mundo espiritual. Esse é um fenômeno absolutamente natural e inerente a todo espírito encarnado. Uma grande parte continua a dormir em espírito, logo acima de onde está descansando o corpo físico. Outros limitam-se a passear inconscientes pelo próprio quarto ou casa, repetindo, mecanicamente, o que fazem todos os dias durante a vigília. E há os que saem de casa e vão além.

Dentre estes, uma pequena parte procura manter uma conduta ética elevada, 24h por dia, tentando sempre melhorar-se como pessoa, buscando sempre ajudar e crescer e, muitas vezes, é levada ao Umbral em missão de resgate ou assistência, trabalhando com espíritos mais preparados, doando suas energias pelo bem de outros espíritos.Mas há um grande número dos que conseguem sair de seu próprio lar durante o sono e vão para o Umbral por afinidade, em busca daquilo que tinham em mente no momento em que adormeceram ou obedecendo a instintos e desejos inferiores que, embora muitas vezes não estejam explícitos na vigília, estão bem vivos em sua mente e surgem com toda força quando projetados.

Essas pessoas, muitas vezes, acabam sendo vítimas de espíritos profundamente perturbados ligados ao Umbral que as vampirizam e manipulam, em alguns casos chegando até a interferir em sua vida física, criando problemas familiares, doenças, perturbações psicológicas, dificuldades profissionais e financeiras, etc.


Vemos, assim, que o Umbral, de que falam André Luiz e tantos outros autores encarnados e desencarnados, está mais próximo de nós, encarnados, do que muitos de nós imaginam.

E, o que é mais importante, somos nós mesmos que ajudamos a manter esse mundo denso com nossos pensamentos e sentimentos menos elevados. Somos nós que damos aos espíritos perturbados, que se encontram ligados a essa faixa vibratória, grande parte da matéria-prima de que se valem para sustentar seu mundo de trevas e sofrimento.O Umbral está em todo lugar e em lugar nenhum, pois está dentro de quem o cria para si mesmo e acompanha o seu criador para onde quer que ele vá.

Toda vez que nos deixamos levar por impulsos de raiva, agressividade, ganância, inveja, ciúmes, egoísmo, orgulho, arrogância, preguiça, estamos acessando uma faixa mais densa desse Umbral. Toda vez que julgamos, criticamos ou condenamos os outros, estamos nos revestindo energeticamente de emanações típicas do Umbral.

Toda vez que desejamos o mal de alguém, que nos deprimimos, que nos revoltamos ou entristecemos, criamos um portal automático de comunicação com o Umbral. Toda vez que nos entregamos aos vícios, à exploração dos outros, aos desejos de vingança, aos preconceitos, criamos ligações com mentes que vibram na mesma faixa doentia e estão sintonizadas com o Umbral.

O Umbral só existe porque nós mesmos o criamos, e só continuará existindo enquanto nós mesmos insistirmos em mantê-lo com nossos desequilíbrios.


O Umbral é nosso também, faz parte do nosso mundo e não podemos renegá-lo ou simplesmente ignorá-lo. Assim como não podemos também fingir que não temos nada a ver com ele. Lá estão também algumas de nossas próprias criações mentais, de nossos sentimentos inferiores, de nossos pensamentos mais densos. E lá vivem espíritos divinos como nós, temporariamente desviados do caminho de luz em que foram colocados por Deus.

Por isso é importante que não vejamos o Umbral como um lugar a ser evitado ou uma idéia a não ser comentada, mas como desequilíbrio espiritual temporário de espíritos como nós que, muitas vezes, só precisam de um pouco de atenção e orientação para se recuperarem e voltarem ao curso sadio de suas vidas.

É comum encontrarmos médiuns e doutrinadores que têm medo ou aversão ao trabalho com espíritos do Umbral, evitando atendê-los, ignorando-os friamente ou tratando-os como criminosos sem salvação que não merecem qualquer compaixão ou respeito.

Estas pessoas esquecem-se de um dos preceitos básicos da espiritualidade: a caridade. Os habitantes do Umbral não são nossos inimigos, mas espíritos que precisam de compreensão e ajuda.

Não são irrecuperáveis, mas perderam o rumo do crescimento espiritual. Não estão abandonados por Deus, mas não sabem disso e desistem de procurar orientação. Não são diferentes de nós, mas tão semelhantes que vivem lado a lado conosco, todos os dias, observando nossos atos, analisando nossos pensamentos, vigiando nossos sentimentos, prestando atenção às nossas atitudes.

E, se não queremos ir ao Umbral por afinidade, que nos ocupemos em nos tornar seres humanos melhores, mais dignos, mais éticos, 24h por dia.

Desse modo, nossa passagem pelo Umbral será sempre na condição de quem leva ajuda sem medo, sem preconceito e sem sofrimento, e não de quem precisa de ajuda para superar seus próprios medos, preconceitos e dores.



(Maísa Intelisano) Artigo originalmente escrito para a revista Espiritismo e Ciência, da Editora Mythos e publicado na edição 16 - Ano 2
Fonte: http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=2875




A CENTELHA DIVINA QUE HABITA EM NÓS

Somos seres espirituais, filhos de Deus, vestidos na forma humana. Nós temos uma natureza divina, e uma parte de Deus habita dentro de nós.

Esta é a nossa fonte pessoal de poder, o nosso elo com o criador, que infelizmente tem sido ignorado pela humanidade.

A tradição hindu descreve este espírito que habita dentro de nós, como "o Ser mais interno, não maior do que um polegar", e que “habita o coração”.

Os budistas o chamam de natureza búdica.

Os místicos judeus referem-se a ele como o neshamah.

Os esotéricos ensinam que existe uma chama trina, de cores azul, amarela e rosa, que está localizada em nosso coração, e que representam a o Poder do Pai, a Sabedoria do Filho, e o Amor do Espírito Santo, à nossa disposição.

Os católicos chamam de centelha divina.

Eckhart, teólogo e místico cristão do século XIV, dizia que existe uma semente de Deus dentro de nós, e, que é divina. Onde Deus resplandece e flameja sem cessar.

Embora cada um deles veja por um ângulo diferente, todas estas sendas místicas descrevem a chama espiritual, a centelha divina que pulsa nas profundezas dos nossos corações.

Algumas pessoas têm muita dificuldade em aceitar que Deus viva dentro delas. Isto porque muitos de nós fomos ensinados, quando crianças, a procurar Deus fora de nós, para solucionar os problemas da vida, em vez de acessar o poder espiritual interior, para solucioná-los.

Por que esta centelha divina é o contato imediato que temos com Deus, podemos obter todas as respostas aos nossos problemas, bastando abrir este contato interior.

Os primeiros cristãos, conhecidos como gnósticos, usavam a imagem do "ouro na lama" para ajudar as pessoas a compreender a essência desta chama espiritual. Eles diziam que o ouro do nosso espírito pode estar coberto pela lama do mundo, mas a lama nunca poderá destruir este espírito inato.

Em outras palavras, não importam as situações que tenhamos vivido. Não importa quanta lama tenha respingado sobre o nosso espírito e moldado a nossa personalidade exterior enquanto caminhávamos pela vida.

Não importa as barreiras que precisamos transpor. Ainda temos uma centelha de Deus, linda e eterna, dentro de nós, viva e atuante, à nossa disposição para nos proteger e direcionar, para nos suprir de todas as carências, bastando para isso, abrir este contato interior.





TEXTO DO LIVRO - A ESPIRTUALIDADE EM PRÁTICA
DE ELIZABETH CLARE PROPHET EDITORA: NOVA ERA