terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gustavo - Se eu quiser falar com Deus - aniversário de 89 anos do CEAC Maria Madalena - 15/09/13


Aniversário de 89 anos do CEAC Maria Madalena - 15/09/2013


A história a seguir faz parte do livro "Aos Pés do Preto Velho" - Editora do Conhecimento

       “Eu me chamo Pai Ambrósio. Sou no Astral um preto velho, por simpatia a esta forma espiritual, e obreiro socorrista desencarnado da igreja A...Também faço parte do Grupo de Umbanda Triângulo da Fraternidade, no qual o amigo Ramatís nos autoriza a trabalhar e dele é o tutor espiritual. O médium que escreve meus pensamentos é um dos componentes da corrente. Hoje estou acompanhando um grupo de outros obreiros evangélicos que estarão visitando este centro de umbanda pela primeira vez. Este intercâmbio ecumênico é comum do lado de cá, infelizmente ao contrário daí. Vou contar um pouco da minha última vida na carne para que os leitores possam compreender como cheguei aqui e como Deus é bom. 
      Durante décadas freqüentei um mesmo centro espírita na crosta, localizado na região central de uma grande capital brasileira. Todos os dias em que ia para o labor espiritista, deixava meu carro numa garagem próxima e andava algumas quadras até a sede do centro, passando por uma vistosa praça. Sempre que atravessava por entre os bancos da praça, com seu lindo chafariz central, lá estava um pastor evangélico aos berros citando o Velho Testamento, doutrinando os “ventos”, pois geralmente estava só; vez que outra um ou outro mendigo o escutava. Toda semana, infalivelmente, fazendo chuva ou Sol, lá estava o pastor lendo a Bíblia e fazendo sua preleção, o que para a minha racionalidade espírita era pura fascinação. 
      Passaram-se os anos, eu me tornei dirigente de grupo, palestrante, eminente orador, coordenador da escola de médiuns, diretor espiritual e finalmente presidente e membro de federação. Assim como galguei degraus na hierarquia do centro, minha atividade profissional como juiz federal também deslanchou e cheguei ao máximo da carreira. 
      E lá estava ele, firme como uma rocha intocável, o velho conhecido pastor evangélico, raramente com um terno diferente. A sua Bíblia já gasta e amarelada, ele estático naquela atividade e eu bem sucedido profissionalmente e no topo de uma tarefa espiritual. Olhava-o e tinha pena da criatura, ensimesmada nas leis mosaicas e impenetrável às luzes libertadoras de Jesus reforçadas com a Boa Nova do espiritismo. Por vezes cheguei a abordá-lo, dizer da sua perda de tempo, recomendando a ele comparecer ao centro que eu dirigia, mas ele sempre me olhava com olhos de quem via algo que eu não via; dizia que me perdoava pelo erro de julgamento e continuava as suas preleções aos poucos transeuntes que paravam para escutá-lo. Envelhecemos juntos, literalmente lado a lado, nos encontrando toda semana. 
      Chamava-me a atenção a sua pontualidade e férrea regularidade no comparecimento à praça. Muitas vezes citei-o como exemplo de persistência em nossas reuniões de conselho na federação, brincando com os outros dirigentes, pois se até um pastor evangélico conseguia ser assíduo no seu templo-praça, sofrendo as intempéries climáticas forçosamente na cabeça, com certeza eles conseguiriam regularidade nos centros que dirigiam, ou não éramos espíritas de verdade. 
        Enfim, minha derradeira hora chegou e desencarnei como presidente de centro renomado, eminente espírita e desembargador aposentado. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que não fui para nenhuma colônia e muito menos visualizei qualquer mentor espiritual! Não tendo ocupação no além-túmulo, fiquei perambulando no centro espírita, continuando a mandar nos médiuns que, pasmem, obedeciam às minhas ordens mentais. Não sei quanto tempo se passou, mas era como se eu ainda estivesse vivo e trabalhando no centro ao qual tinha me dedicado por tanto anos.

      Certa noite, quando menos esperava, fui atraído por uma força centrípeta incontrolável e me vi fixado no corpo de um médium, como se estivesse dentro dele, e pude falar normalmente com os vivos da mesa como se fosse dono da cognição e psicomotricidade daquele amontoado de carne quente que me acolhia. Senti um bem-estar que há muito já havia esquecido que existia. Disse-lhes que eu continuava o presidente, que não os abandonara e tinha algumas orientações a dar, pois estava contrariado com as recentes mudanças, que as coisas tinham que voltar a ser como eram. Pasmado, escutei o doutrinador me esclarecer que já tinham se passado dez anos do meu desencarne, que estava na hora da minha libertação da Terra, que eu não poderia mais ficar ali junto com os médiuns. Agradeci e disse que estava à disposição para ir para uma colônia espiritual no Astral Superior, que deveria ser o meu lugar, por inquestionável direito conquistado e reconhecida obra realizada. Ao terminar de falar, senti uma sonolência gostosa, um leve torpor acompanhado de uma força de sucção centrífuga, puxando-me para trás pela nuca, e senti um calafrio ao desacoplar-me do médium.  
     Suave e repentinamente desvaneceram-se todas as formas da construção em que eu estava e vi-me numa estrada escura e completamente solitário. Andei, andei e andei e nunca encontrava ninguém. Tanto caminhei que as solas do meu sapato ficaram gastas e comecei a andar descalço, sentindo muita fome, sede e cansaço. Um dia, com feridas sob as solas dos pés e pústulas fétidas nas canelas que tinham se formado pelos constantes arranhões de galhos secos que encontrava em meu caminho, sento no chão e começo a orar ao Alto:
     - Pai Santíssimo, porque me abandonaste? Eu que sempre me dediquei ao centro, ampliei-o, expandi os trabalhos, aumentei o número de freqüentadores, sistematizei a escola de médiuns, estruturei o departamento social, aumentei o quadro de associados, ampliei a livraria e a arrecadação... por que, meu Pai, por quê???
     Sentado, batia com as mãos no chão num choro de raiva e autocomiseração, sentindo pena de mim mesmo.
Aos poucos, foi surgindo uma luzinha ao longe: parecia um vagalume se aproximando. A luz paulatinamente foi crescendo e pude ver um homem com uma vela num castiçal e uma Bíblia embaixo do braço se aproximando, cada vez mais perto, mais perto:
      - O quê!? Não acredito! Você, o pastor evangélico! O que faz aqui? Cadê os socorristas do centro? Os caravaneiros de Maria de Nazaré? Os confrades amigos?
      - Meu querido irmão, Jesus a todos nos conforta e de ninguém se faz ausente. Posso ajudá-lo? Venha comigo!
       - Nunca. Você é um inepto sem estudo e formação teológica, que nada realizou em toda uma encarnação. Como pode agora querer me socorrer, eu, um jurista irrefutável, elevado tribuno e renomado presidente de centro espírita?
      - Meu caro, olhe a sua situação: você nem consegue ficar em pé, seus cabelos estão longos e desgrenhados, suas unhas enormes, suas roupas em farrapos, suas pernas purulentas e o seu semblante chupado qual cadáver andando na noite. Está fraco, com fome e sede, mas não verga seu orgulho insano. Precisa de ajuda e cá estou ao seu lado, o primeiro desencarnado que comparece em seu auxílio. Ou já viu algum outro?
     - É verdade, tenho que admitir que nunca enxerguei nenhum, você é o primeiro, para a minha decepção. O que houve? Por que o meu abandono? O que eu fiz de errado? Onde está o amor fraternal e consolador tão apregoado nas hostes espiritistas?
     - Querido irmão, o amor de Jesus está aqui e igualmente em todos os lugares a que vamos, sempre ficando com cada um de nós. Você não o sente pois desgarrou-se do Seu rebanho. Mas tranqüilize-se, eis que nunca esteve perdido.
     - Mas o que houve? Ao menos você, mesmo nada tendo realizado, me diga!
     - Amado irmão, temos que reconhecer que fez consideravelmente em favor da doutrina e da causa que abraçou. Todavia, se muito fez, muito mais recebeu em vida. Deixou-se contaminar-se pelo vício do reconhecimento e com o “sucesso” e brilho intelectual de renomado dirigente espírita. 
     - Mas tudo o que fiz de nada valeu?
     - Claro que foram de grande valia para a coletividade, mas de muito maior valia foram para o gozo do seu ego. Recebeu na carne todos os bônus pelo seu trabalho e voltou para cá devedor, pois por muitas vezes não fez por altruísmo ou caridade, mas unicamente pelo anseio dos elogios e consagração do seu sacerdócio frente aos seus pares.
     - Quem é você para me julgar, um inepto que nada fez?
     - Meu caro, se o julgo, é para que desperte da chama da vaidade. Com a mesma medida com que medimos somos medidos. Meço-o para socorrê-lo. E você, que por anos e anos a fio me julgou, por simples escárnio e senso de superioridade? Quantas vezes fui motivo de piada sua entre seus pares, nos corredores do centro? Na verdade está em débito com a Lei Divina. Seja humilde e deixe-me interceder em seu favor, levando-o daqui para um lugar melhor.
     Neste momento, a Bíblia do pastor ficou luminosa como se fosse ouro fosforescente e vi-o pregando em praça pública com centenas de espíritos desencarnados em volta, escutando-o. Ao mesmo tempo, falanges de socorristas dos centros espíritas e de umbanda próximos atendiam-nos; padres, enfermeiros, caboclos e pretos velhos unidos auxiliando os sofredores perdidos – colocavam-nos em macas e os levavam para os diversos hospitais do Astral. Enfim, compreendi tudo. Oh Deus, como estive errado em toda uma existência!!!
    - Sim, é verdade. Diante do que você fez, no silêncio de uma vida, eu nada realizei, quando me comparo. Você que foi alvo do meu barulhento escárnio, trabalhou em silêncio com afinco e humildade. Eu sempre usei minha intelecção para as glórias efêmeras do reconhecimento de meus confrades. Recebi em vida e devo ainda muito. Você nada recebeu na Terra, acumulando para quando voltasse para a vida real do espírito. Pode me emprestar alguns vinténs no livro da contabilidade sideral? Aceito a sua ajuda e peço o seu perdão.
     - Nada tenho a perdoar, querido irmão, pois em nada me ofendeu. Aquele que não se ofende não tem o que perdoar. Vamos, dê-me as mãos e partamos logo daqui.
    Com choro sincero, não só estendi a mão como abracei ardentemente aquele pastor evangélico como nunca me lembro de ter abraçado alguém.Adormeci como uma criança que é levada para a cama por um vovô protetor e bondoso.
    Acordei numa espécie de internato evangelista no astral, alimentado, vestido, limpo e num quarto com linda vista para um jardim florido em dia ensolarado. Suave cheiro de jasmim impregnava o ambiente e um lindo canário amarelo chilreava na janela. Um educado monsenhor entra e diz-me que tinha desencarnado fazia 20 anos. Passara dez anos no centro espírita, no meio dos encarnados, até que fui “removido” numa sessão de desobsessão. Ocorre que eu, não tendo merecimento para ser socorrido, tive que ficar mais dez anos andando a sós numa estrada escura, que em verdade era uma concha astral refletindo meu estado egoísta e solitário de consciência. Eu mesmo me bastei por anos e anos na Terra, sempre mandando nos outros, e tive que ficar sozinho uma década para vencer o meu orgulho de Hércules e permitir-me ser ajudado.
    Enfim, para a minha história não se alongar demais, hoje sou um obreiro socorrista num igreja evangélica e conduzo para a umbanda os espíritos afins com a egrégora dos Orixás, caboclos, pretos velhos e exus. Eu ainda tenho muito que aprender a obedecer e a colocar a “mão na massa”. Vou também seguidamente junto com os pastores que fazem pregações nas praças e ajudo socorrendo os sofredores desencarnados que se amontoam em volta. 
Hoje compareci para contar um pouco da minha história, participar de mais uma gira de umbanda que ocorrerá daqui a pouco e contribuir com Pai Tomé e Ramatís, testemunhado a verdade do lado de cá - estamos todos unidos em nome de Jesus, num congraçamento espiritualista ecumênico, amoroso, eclético e universalista que se une na essência do amor e se desvincula das formas transitórias terrenas, sectárias e que tanto separam os homens do Cristo Interno.
     Sou o Pai Ambrósio, por simpatia um negro véio, simples obreiro socorrista em nome de Nosso Senhor Jesus, não importa onde nem com quem.
Muito obrigado e muita paz para todos os espiritualistas da Terra.”
    Ao final da comunicação, escutei um ponto que foi cantado por um coral de entidades que haviam sido socorridas em outras ocasiões por Pai Ambrósio...

Chegou Pai Ambrósio, chegou 
Pra salvar os filhos de fé 
Na Umbanda só se vence com amor 
E ele vem, na linha do Senhor 
E ele vem, em nome do Senhor


Nota de Ramatís - 1: As sábias Leis Divinas impõem quitação de até o último centavo das vossas dívidas cármicas. Ao invés de ferrenho juiz, o Pai é benevolência incondicional e contempla na engenharia do Cosmo mecanismos inexoráveis à redenção pelo amor, para alcance dos planos angelicais.  
O pastor que passou uma encarnação pregando na praça pública e socorrendo desencarnados redimiu-se de sua encarnação como ferrenho sacerdote inquisidor que mandou centenas de benzedeiras, curadores, quiromantes, boticários e ciganos para as fogueiras. Atuava instalando pequenos, ágeis e móveis tribunais inquisitoriais nas praças medievais das pequenas vilas e cidades da época, especializando-se em julgar os aldeões e nômades pagãos que não haviam se convertido ao catolicismo. Por sua vez, o ex-presidente do centro espírita fora seu fiel amigo cardeal e sacerdote chefe do temido Santo Ofício espanhol, que o acobertava nos assassínios fratricidas em nome do Cordeiro. Ambos espíritos muito endividados com a contabilidade sideral, nos entrecruzamentos da verdadeira vida do espírito imortal, encontraram-se mais uma vez para resgatarem reciprocamente suas dívidas.No momento o antigo pastor está encarnado, desempenhando importantes tarefas como médium de cura em renomado centro universalista ecumênico em vossa capital federal, e o ex-líder espírita é dedicado obreiro do lado de cá na causa de Jesus, desempenhado atividades como mais um anônimo preto velho na Umbanda.

Nota de Ramatís – 2: “Não há desdouro nem desmentido no processo evolutivo da alma imortal, quando, apesar do seu avanço intelectual e científico no mundo terreno, precisar envergar o traje humilde do preto velho ou do caboclo rústico, a fim de conseguir o seu reajustamento espiritual combalido e tão prejudicado no pretérito. Em verdade, trata-se apenas de um estágio ou espécie de descanso intelectual, em que o espírito superexcitado por excessivo racionalismo efetua salutar decantação de sua personalidade humana que fora muito envaidecida com as lantejoulas brilhantes do cenário terreno!
Sem os louvores e o destaque que lhe nutriam a vaidade no passado, o sábio, o estadista, o médico ou cientista então efetuam verdadeiro "dreno" psíquico e o expurgo do tóxico intelectual produzido pelo orgulho ou vaidade da velha personalidade humana. A inteligência, a capacidade e a prepotência incomuns do passado atrofiam-se pela ausência de estímulos pessoais e relevos decorativos no seio da Humanidade.

Eis por que não opomos dúvida quanto à possibilidade de espíritos cultos de sábios, cientistas ou médicos famosos virem a manifestarem-se nos terreiros de umbanda ou mesmo junto às mesas kardecistas sob o traje humilde do preto velho ou da vestimenta apagada do caboclo.”

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Homenagem a Maria Madalena - maio de 2013 - Súplica de Mulher



Súplica de mulher
Livro: “Maria Dolores” – Psicografia: Francisco C. Xavier – Espírito: Maria Dolores

Mensagem de Eurípides Barsanulfo


Irmãos queridos:


Diante dessa crise que se abate sobre o nosso povo, face a essa onda de pessimismo que toma conta dos brasileiros, frente aos embates que o país atravessa, nós, os seus companheiros, trazemos na noite de hoje a nossa mensagem de fé, de coragem e de estímulo. Estamos irradiando-a para todas as reuniões mediúnicas que estão sendo realizadas neste instante, de norte a sul do Brasil. Durante vários dias estaremos repetindo a nossa palavra, a fim de que maior número de médiuns possa captá-la. Cada um destes que sintonizar nesta faixa vibratória dará a sua interpretação, de acordo com o entendimento e a gradação que lhe forem peculiares. 
Estamos convidando todos os espíritas para se engajarem nesta campanha. Há urgente necessidade de que a fé, a esperança e o otimismo renasçam nos corações. A onda de pessimismo, de descrédito e de desalento é tão grande que, mesmo aqueles que estão bem intencionados e aspirando realizar algo de construtivo e útil para o país, em qualquer nível, veem-se tolhidos em seus propósitos, sufocados nos seus anseios, esbarrando em barreiras quase intransponíveis. 
É preciso modificar esse clima espiritual. É imperioso que o sopro renovador de confiança, de fé nos altos destinos de nossa nação, varra para longe os miasmas do desalento e do desânimo. É necessário abrir clareiras e espaços para que brilhe a luz da esperança. Somente através de esperança conseguiremos, de novo, arregimentar as forças de nosso povo sofrido e cansado. 
Os espíritas não devem engrossar as fileiras do desalento. Temos o dever inadiável de transmitir coragem, infundir ânimo, reaquecer esperanças e despertar a fé! Ah! a fé no nosso futuro! A certeza de que estamos destinados a uma nobre missão no concerto dos povos, mas que a nossa vacilação, a nossa incúria podem retardar. Responsabilidade nossa. Tarefa nossa. Estamos cientes de tudo isto e nos deixamos levar pelo desânimo, este vírus de perigo inimaginável. 
O desânimo e seus companheiros, o desalento, a descrença, a incerteza, o pessimismo, andam juntos e contagiam muito sutilmente, enfraquecendo o indivíduo, os grupos, a própria comunidade. São como o cupim a corroer, no silêncio, as estruturas. Não raras vezes, insuflado por mentes em desalinho, por inimigos do progresso, por agentes do caos, esse vírus se expande e se alastra, por contágio, derrotando o ser humano antes da luta. Diante desse quadro de forças negativas, tornam-se muito difíceis quaisquer reações. Portanto, cabe aos espíritas o dever de lutar pela transformação deste estado geral. 
Que cada Centro, cada grupo, cada reunião promova nossa campanha. Que haja uma renovação dessa psicosfera sombria e que as pessoas realmente sofredoras e abatidas pelas provações, encontrem em nossas Casas um clima de paz, de otimismo e de esperança! Que vocês levem a nossa palavra a toda parte. Aqueles que possam fazê-lo, transmitam-na através dos meios de comunicação. Precisamos contagiar o nosso Movimento com estas forças positivas, a fim de ajudarmos efetivamente o nosso país a crescer e a caminhar no rumo do progresso. 
São essas forças que impelem o indivíduo ao trabalho, a acreditar em si mesmo, no seu próprio valor e capacidade. São essas forças que o levam a crer e lutar por um futuro melhor. Meus irmãos, o mundo não é uma nau à matroca. Nós sabemos que “Jesus está no leme!” e que não iremos soçobrar. Basta de dúvidas e incertezas que somente retardam o avanço e prejudicam o trabalho.Sejamos solidários, sim, com a dor de nosso próximo. Façamos por ele o que estiver ao nosso alcance. Temos o dever indeclinável de fazê-lo, sobretudo transmitindo o esclarecimento que a Doutrina Espírita proporciona. Mas também, que a solidariedade exista em nossas fileiras, para que prossigamos no trabalho abençoado, unidos e confiantes na preparação do futuro de paz por todos almejado. E não esqueçamos de que, se o Brasil “é o coração do mundo”, somente será a “pátria do Evangelho” se este Evangelho estiver sendo sentido e vivido por cada um de nós”.

Eurípedes Barsanulfo
Mensagem recebida no Centro Espirita “Jesus no Lar” - 10/05/2013
Medium - Suely Caldas Schubert

terça-feira, 21 de maio de 2013

SÚPLICA DE MULHER


E disseste Senhor: “Ide e pregai”.
Aqui estou
Para ouvir-te a palavra e dar-lhe desempenho,
Muito embora os defeitos que ainda tenho,
Para estender às criaturas
As notícias do amor de Nosso Pai...

Que dizer, entretanto,
Ao coração que se encharcou de pranto
Pelo extremo cansaço?
Ao companheiro que se entrega ao crime,
Sem que eu consiga desarmar-lhe o braço?
Ao homem sem apoio a que se arrime,
Vendo um filhinho enfermo,
Entre a penúria e a morte?
E ao outro que se rende a desmando profundo,
Criando chagas vivas para o mundo
Sem mão que as reconforte?

Que falarei, Senhor,
À criança que vaga sem amor,
Ao coração de Mãe com um filho ao colo,
A estirar-se no solo,
Em aflição tremenda,
Com febre e inanição,
Sem qualquer agasalho que as defenda,
Sem qualquer proteção?
Que palavras direi, Senhor Jesus,
Aos que andam sem luz.
E anseiam por fugir, num derradeiro aceno,
Entornando na boca a dose de veneno?

Que frases tecerei, Amado Amigo,
Aos que vão, em saber, entre a sombra e o perigo,
Nas trilhas da descrença
Sobre as quais se conjuga
A droga utilizada para a fuga?
Aos que caem, por fim, no desespero inglório,
Buscando apoio e luz, na paz de um sanatório?


Que falarei, Senhor,
Aos que perderam corações queridos
E esquadrinham na lousa
O conforto que tarda,
Procurando na cinza o que a cinza não guarda?

Que direi aos doentes
Que acordam sobre a mesa
De abençoada cirurgia,
Ao se verem sem mãos
Ou reclamando as pernas amputadas?


Que direi, meu Jesus,
Aos pais que viram mortos
Filhos queridos nas estradas
Ou nas pedras da rua,
Através de terríveis acidentes,
Sem saberem que a vida continua
Em planos diferentes?

Ah! sim, Jesus, já sei o que dizer...
Direi que sempre existes
E que reanimarás todos os tristes,
Que pela fé que nos alcança
Temos contigo a fonte da esperança;
Que a ninguém deixarás, de espírito sozinho,
Que nos socorrerás de caminho em caminho,
Na proteção com que nos agasalhas,
Que embora as nossas falhas,

Nós todos somos teus
Tutelados que levas para Deus!...
E se alguém estranhar
Seja eu a singela mensageira
A proclamar o brilho de teu nome,
Dentro da imperfeição que me consome
E nas fraquezas de que me assinalo,
Direi aos companheiros de quem falo
Dos amados amigos que me deste,
Que te espalham no mundo a Bondade Celeste,
Trabalhando e servindo, em qualquer parte,
Ao seguir-te e ao louvar-te...

E, quanto a mim, Senhor,
Que me entrego, de todo e sem reservas,
Ao teu apostolado redentor,
Explicarei que me conservas,
Em minha ignorância e pequenez,
Tão-só para levar,
Seja onde for,
O meu simples cartaz
Enfeitado de amor,
Entre flores de paz,
Sobre o qual escrevi
Com tua permissão,

Estas sete palavras de oração,

De fé, respeito e luz:

- “Confiamos em Deus na bênção de Jesus”.



FONTE: Livro: “Maria Dolores” – Psicografia: Francisco C. Xavier – Espírito: Maria Dolores

domingo, 19 de maio de 2013

Amor e Perdão

E Madalena fora ao túmulo querido
Entre pedras de extremo desconforto...
Levava flores para o Mestre morto,
Tinha o peito magoado e enternecido.

O Sol reaparecia, resplendente,
A névoa da manhã fundia-se no ar,
Na dourada invasão das flamas do Nascente,
Maria estava ali, unicamente,
A fim de estar a sós, recolher-se e chorar.

A desfazer-se em pranto, ela argüía:
- “Por que, por que Senhor?
Tanta saudade e tanta dor?!...
Toda a felicidade que eu sentia
Jaz aqui sepultada...
Transformou-se-me a vida em sombra e nada
No ermo deste pouso derradeiro...”

Nisso, ela viu alguém... Seria um jardineiro?
Um zelador daquele campo santo?
Mas tomada de espanto,
Viu-se à frente do Mestre Nazareno,
O excelso benfeitor ressuscitado,
A envolver-lhe de paz o coração cansado...
Ela gritou: “Senhor!”
Ele disse: “Maria!”

Ela era a expressão da perfeita alegria,
Ele, o perfeito amor.
Madalena ajoelhou-se e quis beijar-lhe os pés...
- “Maria, por quem és” – explicou-se
“Não me toques, porquanto
não te esperava aqui neste recanto,
e ainda não fui ao Pai revestir-me de luz...”
Maria, surpreendida,
indagou em seguida:
- “Senhor, onde estiveste?
Em que jardim celeste
Encontraste o descanso necessário,

Que vem de Deus, nos dons da paz completa?
Perdoa-me, Senhor, a pergunta indiscreta,
Dói-me, porém, pensar na angústia do Calvário,
Revolto-me, padeço, mas não venço
A mágoa de lembrar-te o sacrifício imenso”
Mas Jesus respondeu:
- “Não, Maria, não fui ainda ao Alto,
Nem me elevei sequer um palmo à luz do firmamento,

Quem ama não consegue achar o Céu de um salto...
Ao invés de subir aos Altos Resplendores,
Desci, mas desci muito aos reinos inferiores...
Despertando no túmulo, escutei
Os gritos da aflição de alguém que muito amei
E que muito amo ainda...
Embora visse Além, a Luz sempre mais linda,
Sentia nesse alguém um amado companheiro,

Em crises de tristeza e de loucura...
Fui à sombra abismal para a grande procura
E ao reencontra-lo amargurado e louco,
A ponto de não mais me conhecer,
Demorei-me a afaga-lo e, pouco a pouco,
Consegui que ele, enfim, pudesse adormecer...”
- “Senhor” – interrogou a Madalena
“Quem é o amigo que te fez descer,

Antes de procurar a luz do Pai?”
Mas Jesus replicou, em voz clara e serena:
- “Maria,
um amigo não esquece a dor de outro amigo que cai...

Antes de me altear à Celeste Alegria,
Ao sol do mesmo amor a Deus, em que te enlevas,
Vali-me, após a cruz, das grandes horas mudas,
E desci para as trevas,
A fim de aliviar a imensa dor de Judas”.

Maria Dolores

Do livro: Coração e Vida, Médium: Francisco Cândido Xavier


Maria Dolores, nasceu na cidade de Bonfim da Feira, estado da Bahia, aos 10 de setembro de 1901. Dedicou-se à poesia e ao jornalismo. Em Salvador assinou a página feminina do Jornal "O Imparcial" durante 13 anos, época em que também lecionava humanidades. Receando a apreciação da crítica especializada, guardou para si sua obra poética durante muito tempo, segundo confessa no prefácio do livro "Ciranda da Vida". Sua primeira obra publicada foi em benefício da instituição "Lar das Meninas Sem Lar", fato esse que propiciou sua entrada no mundo literário. Dedicou-se ao amparo das crianças assistidas pela citada instituição, estendeu sua obra benemérita abrigando em seu próprio lar crianças desvalidas, orientando-as e assistindo-as. A "Casa de Juvenal Galeno", no estado do Ceará, também recebeu o carinho e a ternura de Maria Dolores. Em 27 de julho de 1958 veio a desencarnar. No ano de 1971, através do médium Francisco Cândido Xavier, sua obra poética continua, presenteando-nos com a ternura dos seus ensinamentos transbordantes de amor e fé. Desde então envia, pelas mãos abençoadas do médium mineiro, suas páginas normalmente em forma de poesia e rimas, sendo muito comum enviar as tradicionais mensagens das mães e do Natal, por ocasião destas comemorações. Foi o espírito encarregado de enviar a mensagem "Dádivas de Amor" em vista da desencarnação do Sr. José Gonçalves Pereira.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mediunidade



No entendimento do Espiritismo, mediunidade não é sagrada, não é mística, não é mágica, não é sobrenatural. Não se alcança através de rituais ou de fórmulas predeterminadas. A sua prática é racional, equilibrada, transparente, fruto da persistência e da continuidade. O seu exercício envolve objetivo, planejamento e estruturação do processo.

A mediunidade não serve para “falar com os mortos”, pois os espíritos desencarnados não se enquadram nesta concepção do imaginário da cultura material. A mediunidade não se reduz a um balcão de atendimento ao qual se recorre para resolver problemas. Não serve para dizer o que as pessoas devem fazer ou para decidir seu futuro, tolhendo o seu livre-arbítrio.

Para a Doutrina Espírita, mediunidade não deve ser vista como “transe”. Mediunidade é sintonia e troca de experiência entre espíritos desencarnados e encarnados. Não há perda de consciência, não há anulação. Há soma das experiências das partes envolvidas, trazendo superação.

A mediunidade não “serve contra mau olhado” , não “serve para ganhar na loteria”, não serve para justificar comportamentos anormais. Não “serve para desobsidiar espíritos”. Não é “dom”, não é “graça”, não é castigo ou punição. É trabalho contínuo para a construção de um momento diferente, evidenciado no comportamento de cada um.

A mediunidade não faz milagres. Não concede “poderes” especiais. Ela não é fonte de todo o conhecimento. Os espíritos encarnados e os desencarnados envolvidos no processo mediúnico só conhecem alguma coisa na medida de suas experiências e de suas vivências. A mediunidade não é exclusiva de algumas pessoas. Ela é uma capacidade, uma faculdade do espírito, que se aperfeiçoa pelo exercício e esforço pessoal. Ela é de todo o grupo cultural e está intimamente ligada aos seus valores e sentimentos.

A mediunidade não está pronta e acabada, transforma-se e modifica-se ao longo do tempo, acompanhando o momento emergente, as situações vividas pelo grupo, a evolução das pessoas.

As pessoas evoluem pela soma de suas experiências e das experiências acumuladas pelo grupo social. Em constante crescimento interior, cada pessoa é diferente das outras porque vivem experiências únicas ao longo de sua trajetória de vida. Ao ser colocada diante de novas situações, procura encontrar respostas em seu conhecimento acumulado ou no conhecimento acumulado de outras pessoas, estejam encarnadas ou desencarnadas.

Exercitar a mediunidade é buscar e encontrar respostas para as questões das pessoas e da sociedade, através da comparação dos referenciais de valores, idéias e sentimentos do polissistema material e do polissistema espiritual, úteis para a evolução da pessoa e do
grupo.

Quando uma pessoa elabora um produto mediúnico está procurando, limitada pela prontidão do grupo cultural, evidenciar questões e/ou respostas novas para situações do social. Portanto, o seu produto é, antes de tudo, um produto cultural, com conceitos universais, alternativos, especialistas e individuais, e caracterizado por uma forma, com um significado e com uma função. Mediunidade é instrumento que auxilia cada pessoa na construção do novo, através do rompimento de seus limites, ampliando a visão de si mesmo, dos outros, da natureza, de Deus. Mediunidade é expressão de identidade, é sintonia e troca de experiência. Mediunidade é interação entre os polissistemas material e espiritual.



Texto extraído do site da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE) – www.sbee.org.br



CENTRO ESPÍRITASERVOS DO SENHOR


http://ceservosdosenhor.blogspot.com

segunda-feira, 18 de março de 2013

A alma do mundo

Quando você conseguir superar graves problemas de relacionamentos, não se detenha na lembrança dos momentos difíceis, mas na alegria de haver atravessado mais essa prova em sua vida.
Quando sair de um longo tratamento de saúde, não pense no sofrimento que foi necessário enfrentar, mas na benção de Deus que permitiu a cura.
Leve na sua memória, para o resto da vida, as coisas boas que surgiram nas dificuldades. Elas serão uma prova de sua capacidade, e lhe darão confiança diante de qualquer obstáculo.
Uns queriam um emprego melhor; outros, só um emprego. Uns queriam uma refeição mais farta; outros, só uma refeição. Uns queriam uma vida mais amena; outros, apenas viver. Uns queriam pais mais esclarecidos; outros, ter pais.
Uns queriam ter olhos claros; outros, enxergar. Uns queriam ter voz bonita; outros, falar. Uns queriam silêncio; outros, ouvir. Uns queriam sapato novo; outros, ter pés.
Uns queriam um carro; outros, andar. Uns queriam o supérfluo; outros, apenas o necessário. Há dois tipos de sabedoria: a inferior e a superior.
A sabedoria inferior é dada pelo quanto uma pessoa sabe e a superior é dada pelo quanto ela tem consciência de que não sabe. Tenha a sabedoria superior. Seja um eterno aprendiz na escola da vida.
A sabedoria superior tolera, a inferior julga; a superior alivia, a inferior culpa; a superior perdoa, a inferior condena. Tem coisas que o coração só fala para quem sabe escutar!


                                                                                                        Chico Xavier

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

UM FORRÓ NO UMBRAL

Adaptado de um dos contos do livro de mesmo nome, de Saara Nousiainen, formulando novas idéias e propostas importantes neste período de transição para um novo tempo.



Anastácio cambaleia nos sofrimentos de um enfarte. Aperta o peito com as mãos. Cai, estrebuchando nas angústias do desencarne e, finalmente, fica imóvel.

Sente-se arrastado, não sabe para onde. Aos poucos, começa a ouvir gemidos, gargalhadas e uivos distantes, que vão se aproximando. Reflexos de luzes alaranjadas e avermelhadas de uma fogueira dão ao ambiente um tom umbralino. Figuras grotescas, suadas e com as roupas em desalinho, arrastam-se ao som de uma sanfona desafinada e estridente, que toca música de forró. A um canto, um homem observa. É Jerônimo, administrador daquele núcleo. Anastácio também começa a dançar junto com os outros, movido por forças estranhas. Tenta parar e não consegue. Finalmente se deixa arrastar naquela dança estranha, enquanto grita:

– Mas o que é isso?... Será que estou ficando louco? Por que não consigo parar?

Desesperado, levanta o rosto para o alto:

– Meu Deus, o que está acontecendo?... Me ajuda! Tem misericórdia de mim!

De repente, a música pára e todos se estendem no chão, exaustos.Anastácio, olhos esbugalhados, apalpa-se, belisca-se, enquanto diz, aflito:

– Acho que isto é um pesadelo... Quero acordar!

Jerônimo se aproxima. O tom da voz denota piedade, quando diz:

– Passou a vida inteira em centro espírita e não percebe que já desencarnou...

– Eu...? Desencarnei...? Que brincadeira é essa?

Reflete um pouco, esfrega o rosto e, começando a convencer-se de que morreu, uma expressão de desespero toma conta do seu rosto, de todo o seu ser. Chora. Aos poucos reage e fala, revoltado:

– Então é assim?... Uma vida inteira votada ao Espiritismo... e termino num horrível e asqueroso forró?... Olha na direção do núcleo do forró e conclui:

– No Umbral... com certeza!

Desesperado, agarra Jerônimo pela camisa e pergunta, aos gritos:

–Que significa isto? Alguém tem que me explicar!

– Calma, Anastácio! Quer complicar ainda mais sua situação?

Olhando mais atentamente para Jerônimo, Anastácio exclama:

–Mas você é o Jerônimo. Você foi diretor da área doutrinária do centro. Como é que veio parar aqui?

Esfrega os olhos, o rosto, como a querer libertar-se de um pesadelo.

– Coisas da vida, meu caro – responde tranqüilamente Jerônimo.

– Só posso estar ficando louco! – exclama Anastácio.

– Não, Anastácio. Você não está louco... nem eu. Nós apenas nos enganamos, na Terra.

– Como? Então o espiritismo é mentira? Tudo aquilo que aprendemos é mentira?

– Não, meu amigo. A mentira estava em nós mesmos.

– Mas isso é um absurdo, uma injustiça!

Olha com ar de superioridade para Jerônimo, dizendo:

– Você, na verdade, bem que merece estar aqui, porque nunca foi um espírita decente. Além de irresponsável, sempre foi devasso. Pensa que não sabíamos? Chegou ao cúmulo de seduzir uma jovem da Mocidade... e o que foi que fez?... Hein?

Jerônimo baixa a cabeça, envergonhado. Anastácio continua:

– Induziu a garota a fazer aborto. Todos nós sabíamos disso.

Jerônimo levanta o rosto com ar de profunda mágoa dizendo, em tom de revolta:

– E não me disseram nada! Vocês são quase tão culpados quanto eu. Vocês, que se davam ares de grandes espíritas, praticantes do Evangelho... Para tudo tinham resposta na ponta da língua, como se fossem os porta-vozes do plano superior. Você, então, que era o mais procurado pelas pessoas que buscavam orientação, por que nunca me repreendeu? Por que nunca me aconselhou?

Anastácio abre a boca para responder, mas... dizer o quê? Jerônimo, abatido ao peso da mágoa, deixa-se cair no chão e põe a cabeça entre as mãos. Sua fala é quase um lamento:

– Eu sabia que aquilo estava errado, mas a tentação foi grande demais. A garota me deu bola e... foi uma paixão furiosa. Depois a gravidez, o medo da mulher descobrir... O escândalo. Eu sabia que vocês tinham conhecimento de tudo, mas como ninguém me aconselhou... como nada disseram... Achei que estavam aceitando tudo com naturalidade e eu também acabei acreditando que não estava tão errado assim.

Anastácio fica profundamente consternado. Finalmente exclama:

– Meu Deus, eu nunca tinha pensado por esse enfoque!

Como falando a si mesmo, continua:

– Mas você tem razão. Numa comunidade espírita as culpas de um atingem também aqueles que nada fazem para ajudá-lo a se corrigir.

A música começa de novo e todos vão sendo arrastados por estranha força, para a dança. Só Jerônimo parece imune a ela. Numa das viravoltas Anastácio tropeça e cai, arrastando outro dançarino ao chão. Ao olhar-lhe o rosto, reconhece-o:

– Manoel! Você aqui?

Ia estender-lhe a mão mas observa, horrorizado, que suas mãos estão enroladas em panos sujos de sangue, de horrível aparência. Manoel procura esconder as mãos atrás das costas, envergonhado. Fala em tom humilde:

– Espero que você não permaneça muito tempo por aqui. Eu, bem que mereço. E nem sei quando vou sair. Talvez até me mandem mais para baixo.

Anastácio arregala os olhos, sem entender. Manoel continua:

– Aqui, é uma espécie de região intermediária entre a Terra e o Umbral. Os que carregam culpas mais pesadas e ficam, é porque algo sustou sua queda. No meu caso, foram as preces das pessoas que curei.

Enraizado nos velhos hábitos do orgulho, Anastácio diz, com certo ar de superioridade:

– É... Quanto a você é fácil entender que esteja aqui. Você era médium, espírita, e todos nós sabíamos que começou a cobrar pelas curas que realizava.

Conclui com ar de reprovação:

– Você ganhou verdadeira fortuna com o uso da mediunidade.

Manoel baixa os olhos e fala em tom magoado:

– É verdade. E vocês não me disseram nada. Só falavam pelas costas. Principalmente você, tão zeloso pela pureza doutrinária. Eu era pobre, precisava manter a família. Aí, comecei a receber presentes e quando me dei conta, tinha ido longe demais.

Olha indignado para Anastácio e conclui, num rompante:

– Por que você não me disse nada? Eu achava que se estivesse tão errado assim, os companheiros me chamariam a atenção. Como ninguém me censurou... fui caindo mais e mais.

Sentindo-se arrastado para o turbilhão alucinante fala, quase num grito:

– Por que você não me repreendeu? Devia ter brigado comigo, até mesmo me desmoralizado, agredido... Teria sido bem melhor.

Anastácio baixa a cabeça, pondo-se a chorar amargamente. Aos poucos vai se acalmando, por força do cansaço em virtude daquela estranha dança. A música pára de novo e todos caem no chão, exaustos. Tropeça em algo e se vê junto a um ser estranho, sem forma, cuja vida se manifesta em batimentos cardíacos desordenados.

Horrorizado, grita:

– Mas o que é isso? Um abortado?... Essa, não!!! Desse aí, tenho certeza de não carregar nenhuma culpa. Nunca promovi nem permiti abortos.

Aquele ser estranho responde, com voz lamentosa:

– Eu fui levado a um centro espírita e fiquei esperando minha vez de ser atendido. Tinha certeza de que receberia alívio e poderia recompor meu corpo espiritual. Esperei com toda paciência enquanto você doutrinava um espírito que havia sido assassinado. Parece que era alguém muito importante e você passou a maior parte da sessão conversando com ele, fazendo perguntas e mais perguntas. Quando finalmente chegou a minha vez, era hora de encerrar e você não me deixou incorporar. Eu me desesperei e me agarrei à médium, mas você disse que era hora de encerrar e que ninguém mais poderia “receber” nenhum espírito. Eu fiquei tão revoltado, com tanto ódio de você, que fui arrastado para este lugar.

Perplexo, Anastácio diz:

– Ah, me lembro do caso. Mas não tive culpa. Se os dirigentes não cuidam da disciplina, a sessão vira bagunça.

A estranha figura responde, em tom humilde choroso:

– Eu não queria bagunçar nada. Só queria alívio para o meu sofrimento, que era grande demais...

Anastácio senta-se no chão, profundamente chocado, murmurando:

– Que situação! E eu que achava que seria recebido em Nosso Lar, quando desencarnasse. Tantos anos dedicado à causa. Que ironia! Em vez de Nosso Lar, este horrível Forró. No lugar do Ministro Clarêncio vir me receber, encontro um bando de estropiados e até um abortado! É demais! Não dá para agüentar.

Recompõe-se lentamente. O desespero e revolta dão lugar ao desalento. Continua:

– E o pior de tudo é essa sensação de culpa...

Olha para o abortado e fala, com o olhar perdido ao longe:

– O que será mais importante, a disciplina em nome da caridade... Ou a caridade em nome do amor?

A música recomeça e com ela Anastácio e os demais voltam a rodopiar, num louco e incontrolável frenesi, sem conseguirem parar. Quando finalmente silencia, Anastácio, vencido pelo cansaço, cambaleia e, pára não cair, agarra-se no cabelo de um mulher que está próxima. Ela dá um grito de dor, voltando-se para ele que, espantado, reconhece-a:

– Marieta! Você também está aqui?

Marieta fora uma das melhores palestrantes do movimento espírita local. De olhos arregalados pelo espanto, exclama:

– Anastácio? Nunca esperei que viesse para cá. Você... sempre tão certinho.

– É... nem eu esperava. E você, uma das melhores palestrantes que conheci, como é que veio parar aqui?

– Enganos, meu caro, enganos.

– Quer dizer que veio para cá por engano? Como é que pode?

– Não, não! O engano foi meu. Eu fazia belas e emocionantes palestras e me achava o máximo. Eu vivia muito ocupada em estudar a Doutrina, porque queria ter sempre na ponta da língua a resposta para qualquer pergunta. Sentia uma grande satisfação em poder “esmagar” os outros, num debate, com minhas argumentações, muitas vezes ferinas. Na verdade, Anastácio, eu amava a mim mesma, à minha vaidade. Não pratiquei a fraternidade. Não respeitei meu próximo, como deveria, não respeitei as suas opiniões, seus pontos de vista. Eu achava que era a dona da verdade, e não percebi que a verdade tem muitas facetas, uma para cada momento evolutivo. E vocês que me criticavam pelas costas nunca tiveram fraternidade suficiente para conversarem comigo e me mostrarem meus enganos.

Anastácio fica pensativo por alguns instantes. Finalmente, como degustando a ideia, fala lentamente:

– Você disse uma coisa que só agora estou conseguindo perceber. A Verdade tem muitas facetas, uma para cada momento evolutivo.

– Exatamente! E é por não entendermos isto que geramos tanta discussão, tanta discórdia, tanta divisão.

Reflete um pouco e conclui:

– Eu não fui alteritária.

– Autoritária?

– Não. Eu disse alteritária.

– Que é isso?

Marieta reflete por alguns segundos e explica:

– Ser alteritário significa ter uma relação fraterna e respeitosa com os que pensam diferente, ou são diferentes de nós. Entende?

Pensa um pouco, antes de concluir:

– Bezerra de Menezes disse que “A diversidade é uma realidade irremovível da seara espírita”. Quer dizer que nós precisamos construir a fraternidade nos meios espíritas, apesar das divergências, respeitando-as e procurando aprender com as diferentes opiniões.

Anastácio exclama, em tom de revolta:

– Você diz, precisamos. Como, precisamos? Estamos mortos... desencarnados... perdemos a nossa chance.

Põe-se a chorar, em grande desespero. Jerônimo se aproxima:

– Calma, Anastácio, calma.

A música fica mais alta e Anastácio é novamente arrastado por aquela força, misturando-se aos demais. Uma hora mais tarde, quando ela pára, encosta-se na parede, arfante. Os outros se estendem no chão, exaustos. Após curto descanso Jerônimo e Marieta se aproximam.

– Por que você não é arrastado pela música, assim como nós outros? – Pergunta a Jerônimo.

– Porque sou o administrador. Pedi aos planos mais altos para permanecer mais tempo por aqui. Necessito muito de reflexão, de buscar a minha verdade interior, e aqui posso encontrar muitos exemplos que me ajudarão no futuro.

– E é nessa verdade interior – intervém Marieta – que está o real caminho da evolução.

Silencia por instantes, meditativa. Em seguida, continua:

– Nós, seres humanos, costumamos não aceitar aqueles que não se encaixam em nossos modelos e, com isso, cuidamos de perceber as diferenças deles como sendo defeitos.

– Você agora disse uma dura verdade – exclama Jerônimo. – Queremos sempre que os outros se guiem pelos nossos parâmetros, sem respeitar a sua individualidade, o seu momento evolutivo. Por que sempre pretendemos ser os donos da verdade?

Com leve sorriso nos lábios, Marieta responde:

– Porque somos vaidosos. E então ficamos tão atentos vigiando severamente a melhora dos outros que deixamos de lado a única tarefa que cabe exclusivamente a nós mesmos, o nosso próprio crescimento interior.

– Você tem toda razão – assevera Jerônimo. De modo geral, sentimos verdadeira necessidade de fiscalizar os atos alheios.Em nosso orgulho, acreditamos que as falhas deles diminuem o peso das nossas.

Com um suspiro, Marieta exclama:

– Quanto engano, meu Deus! Quanto engano vivenciamos na Terra; quantas máscaras usamos, tentando esconder nossa própria consciência!

Apontando, espantado, na direção do núcleo do forró, Anastácio exclama:

– Mas aquele ali não é o Onofre?

– É ele mesmo – confirma Jerônimo.

Anastácio está cada vez mais surpreendido, de uma surpresa muito desagradável. Finalmente, pergunta:

– Como é que pode? Um líder espírita tão importante? Que teria feito de tão grave assim?

Com meio sorriso nos lábios Jerônimo explica:

– Um líder espírita importante. Você disse tudo. Um líder espírita precisa entender que a sua vida, suas atitudes, ações e também omissões são exemplos que ele passa e que muitos irão guiar-se por eles. A responsabilidade de um líder é infinitamente maior.

– Mas o Onofre sempre foi um bom exemplo, creio eu – retruca Anastácio.

– Engano seu. Ele era bom exemplo em muitos casos, em outros, não. Lembra aquela vez em que tentamos implantar reuniões voltadas à reforma interior, nos centros da nossa área de atuação?

– Lembro, sim. E essa reforma, ou esse crescimento, passaria a ser prioridade nesses centros. Também seriam implantados alguns recursos utilizados por Psicólogos e Terapeutas, inclusive oficinas, visando ajudar os participantes em sua evolução, mas o Onofre disse que essa não era função de uma instituição espírita; que não queria essas novidades e que bastava o estudo da codificação para alguém que pretendesse fazer a sua reforma interna.

– Sei disso. Lembro-me bem. Mas o que tem isso a ver...?

– O Onofre foi contra, não permitiu. E esse fato causou prejuízos evolutivosa todos nós e também aos centros que iriam participar.

– É verdade. E pensar que eu também fui contra.

– E, além disso, ele não soube construir um ambiente fraterno e alteritário nos centros que dirigiu. Era muito dado a críticas. Tudo ele criticava, desde as instituições até os companheiros de atividades. Nada escapava às suas cáusticas observações e isto gerava um ambiente pesado, um clima de hostilidade, inaceitável numa Casa espírita.

– É... eu lembro.Mas você falou em alteritário. Já ouvi essa palavra, mas ainda não sei exatamente o que significa.

Jerônimo sorri amavelmente e, fitando Anastácio com certo carinho, explica:

– Vejamos você mesmo como exemplo de falta de alteridade. Você sempre primou pela pureza doutrinária. Não era tanto por amor à causa espírita, mas principalmente para poder impor seus pontos de vista. Lembra? Em nome da pureza doutrinária cometeu muitos erros. Proibiu aquela reunião de Evangelho com idosos, promovido pela Iracema, que era psicóloga, só porque ela estava inserindo práticas como o relaxamento e algumas atividades de integração entre os membros do grupo. Não se preocupou em analisar os benefícios do relaxamento, nem a importância da integração entre aqueles velhinhos. Também não valorizou o que é o mais importante para o espírita e para qualquer ser humano.

Anastácio olha de forma interrogadora para Jerônimo, que continua:

– O crescimento interior. Não é essa a meta primordial do Espiritismo? Alteridade é isso, meu caro. É ter disposição para aceitar e aprender com os que são e pensam diferente de nós. Nos meios espíritas admitir a diversidade de opiniões e práticas, desde, é claro, que não fujam aos princípios básicos do Espiritismo. A alteridade não impõe, ela respeita.

Anastácio senta no chão, baixa a cabeça e fica meditativo. Uma mulher, cuja beleza se oculta por trás das rugas e das roupas amarfanhadas, senta-se a seu lado, dizendo:

– Pensei que você fosse demorar mais na Terra.

Surpreendido, Anastácio exclama:

– Suzana? O que faz aqui? Você, que entre outras atividades foi Presidente da nossa Casa, aqui, neste asqueroso forró?

Suzana fica pensativa por instantes. Finalmente, olhando Anastácio nos olhos, diz:

– Por isso mesmo, Anastácio, por isso mesmo. Pelo cargo que eu ocupava deveria ter tido muito mais humildade, mais fraternidade. Eu tinha todos os ensinamentos de Jesus na ponta da língua, mas na hora de praticá-los... O que eu falava não era condizente com as minhas atitudes, principalmente aquelas mais internas, do pensamento, dos sentimentos.

– Mas eu acho isso injusto. Castigos tão horríveis como este, para culpas ou faltas tão pequenas.

Com uma pontinha de ironia na voz, Suzana responde:

– Isto aqui não é horrível, não, meu caro. Horrível é o que tem mais lá embaixo. Este aqui é o setor das faltas menores. Aqui, estagiamos a fim de podermos perceber as nuances de uma conduta não fraterna; pequenos detalhes que não quisemos observar quando encarnados. Aqui, adquirimos consciência dos muitos males que provocamos com nossas atitudes. Veja, por exemplo, o caso da Silvia.

Apontando para uma jovem, diz:

– Aquela ali, de blusa amarela, é a Silvia. Ela era do “Centro Jesus de Nazaré”. Quando a Maria Eulália, uma trabalhadora da Casa, mãe de cinco filhos, adoeceu gravemente, nenhum dos companheiros foi visitá-la. Muito menos colocar-se a disposição para ajudar no que fosse possível. Todos simplesmente ignoraram a situação difícil da companheira.

– E por que só a Silvia veio para cá?

– Calma, amigo! Os outros ainda não desencarnaram.

Numa voz na qual transparecia revolta, Anastácio replica:

– Não, não pode ser! Nunca ouvi dizer que alguém tenha sido atirado no Umbral, só porque deixou de visitar um companheiro doente.

– O problema não está no fato de não terem ido visitar Maria Eulália, mas nafrieza que demonstraram com relação a uma companheira de atividade espírita. A Silvia também trabalhava na recepção, no centro. Ela recebia as pessoas com frieza, com certo ar de superioridade, quando deveria ser fraterna, acolher a todos com simpatia e calor humano.

– Você fala como se fosse fácil ser fraterno.

– Claro que não é fácil. Mas aqui eu tenho tido muito tempo para observar e refletir. E cheguei a uma conclusão interessante, que venho testando comigo mesma. E olha que os resultados são surpreendentes.

– Que conclusão é essa? – Pergunta Anastácio, curioso. Após instantes de silêncio, Suzana responde:

– Reflita comigo. Os espíritas fazem palestras, ouvem palestras, leem verdadeiras enxurradas de mensagens edificantes, de livros de teor evangélico, fazem reuniões de Evangelho... E se perdem nos muitos detalhes.

– Não estou entendendo.

– Todo esse esforço não visa à reforma interior?

A um aceno positivo de Anastácio, Suzana continua:

– Acontece que para a parte mais importante dessa reforma só é necessária uma única ação, que é básica, fundamental. Basta imprimir sempre em si mesmo, ou seja, desenvolver sempre um estado de espírito fraterno e contente.

Anastácio reflete um pouco e um leve sorriso vai tomando conta de seu rosto. Entusiasmado, exclama:

– Está aí uma coisa em que eu nunca tinha pensado. Se eu conseguir manter sempre um estado de espírito fraterno, não preciso me preocupar em me policiar, porque com sentimentos fraternos não vou praticar atos contrários às leis maiores. Meu Deus é uma coisa tão simples!

– Simples como as grandes verdades – exclama Suzana. – Digamos que você tem alguns valores negativos que deseja eliminar, como por exemplo: o orgulho, a vaidade, o desamor, a impaciência e a maledicência. Para conseguir algum resultado vai ter que estar sempre atento, policiando-se, para não praticar o orgulho, a vaidade, o desamor, a impaciência e a maledicência. Mas com a minha receita, basta você se ocupar apenas em desenvolver esses dois estados de espírito. Os resultados são muito mais amplos e profundos, porque você não combate os valores negativos, mas constrói os positivos, entende?

– Realmente – concorda Anastácio. Essa sua receita é um verdadeiro achado. Mas você falou em dois estados de espírito, a fraternidade e o contentamento. Por que este último?

– O contentamento é um verdadeiro elixir de vida. É fundamental para o equilíbrio do ser humano, a sua saúde e bem-estar. Imagine uma pessoa fraterna, mas triste, depressiva, espalhando vibração pesada por onde passa. Para mim, Espiritismo é luz para a mente e amor e alegria para o coração. Isto dá plenitude ao ser.

– Realmente, é impressionante! Vejo você, neste horrível forró, demonstrando serenidade e até mesmo alegria.

Um enfermeiro que se aproxima, ouvindo as últimas palavras de Anastácio, explica:

– Este “horrível forró” como você diz, é coisa nova no mundo espiritual. Ele existe em variados modelos, principalmente nos umbrais do Brasil. É um recurso fundamental na transição do movimento espírita para um patamar mais elevado de consciência, para uma nova era.

Manoel e Marieta se aproximam, desejosos de aprender. Jerônimo faz as apresentações:

– Este é o Bernardo, o enfermeiro que dá assistência neste núcleo. Este aqui é o Anastácio, recém-chegado da Terra. Os outros já se conhecem.

Bernardo olha com ar afetuoso para Anastácio, informando:

– Este tipo de reduto, ou asqueroso forró, como você disse, também é conhecido como incubadora da alma. Aqui acontecem as grandes transformações, os grandes aprendizados.

– É isso mesmo – intervém Suzana. – Somos assim como as sementes que são enterradas no seio da terra para começarem a germinar. Estamos enterrados aqui, para começarmos a transmutar nossa natureza inferior em luz. Descemos a este inferno, como primeiro passo a nos conduzir a níveis mais elevados de consciência.

Cada vez mais surpreendido, Anastácio retruca:

– Não entendi.

– Aqui é aquele momento em que começamos a perceber, com maior clareza, a nossa própria essência. É quando passamos a sentir intensamente a necessidade de vivenciar a nossa verdade mais profunda, sem nenhuma sombra de hipocrisia, sem qualquer máscara, sem subterfúgios.

– Ainda não estou entendo direito.

Gentilmente Bernardo se põe a explicar:

– Os espíritas com menores cargas de erros ou faltas vêm estagiar aqui, para poderem aprofundar-se mais em si mesmos, vasculhar as suas razões mais profundas, descer até às profundezas da própria consciência em busca da verdade sem máscaras.

Estranhando, Anastácio pergunta:

– Verdade sem máscaras? E existe alguma verdade mascarada?

Soa um apito mais parecido a um assovio e Bernardo se apressa em sair, fazendo sinal a Jerônimo, que continua as explicações:

– As religiões cristãs criaram o sentimento de culpa nas pessoas, para melhor poderem dominá-las. Como a culpa é um sentimento desagradável, todos cuidam de cobri-la com máscaras as mais diversas, a fim de poderem sentir-se melhor.

Suzana quebra o breve silêncio que se fizera, explicando:

– Aqui nos reunimos diariamente, assistidos por psicólogos. Eles nos ajudam a aceitar nossas inclinações negativas, como resultado natural das nossas longas elaborações reencarnatórias. Também nos auxiliam a nos auto-amar e, principalmente, a dinamizarmos nossos valores positivos. Isto é muito mais produtivo e ajuda a eliminar os sentimentos de culpa, que são muito prejudiciais.

– A ordem aqui – acrescenta Jerônimo – é o crescimento interior da criatura, e não o seu massacre sob o peso do carma. Nas nossas reuniões cada um fala de si mesmo, dos seus desacertos, quando na Terra, não para se culpar ou desculpar, mas para tentar entender melhor a si próprio.

– E é interessante observar – continua Suzana – que a maioria dos novatos declara-se inocente. Pela ótica deles, são realmente almas puras. Mas aqui são induzidos a mergulhar fundo nas próprias consciências, a procura das razões profundas para os seus atos. Isto porque muitos atos ou atitudes até mesmo louváveis, quando são tiradas todas as máscaras, mostram intenções escusas como a vaidade, a sede de poder, o despeito, a egolatria e até mesmo a omissão, em nome de falsos valores. Veja o seu próprio caso, caro Anastácio. Nas poucas horas em que está aqui, já mudou muitas das suas convicções, não é verdade?

– É verdade – confirma Anastácio. – Nunca me passou pela cabeça que eu usava máscaras. Mas agora estou vendo que usava.

Após instantes de silêncio pergunta:

– E essa música estridente, desagradável, essa força que nos obriga a nos movimentar numa dança grotesca?

– São as forças latentes nesta faixa vibratória e a sua manifestação pode ocorrer de várias formas – explica Jerônimo. – Aqui é nessa dança grotesca, porque obrigatória, onde os presentes vão gastando determinadas energias que precisam eliminar.

E tomando ares de quem vai falar algo importante, continua:

– Contam que no final do século XX, num memorável encontro no mundo espiritual, Bezerra de Menezes lançou as diretrizes para o terceiro período do Espiritismo, que se iniciou com o novo século. Esse deverá ser o período da ATITUDE, ou seja, a fraternidade e a alteridade, na prática, não apenas nas palavras.

Silenciou por instantes, continuando:

– É bem fácil observar como vem surgindo nos meios espíritas, embora de forma ainda muito tímida, uma nova mentalidade; grupos e pessoas muito preocupados com a evolução espiritual da comunidade e procurando meios que ajudem as pessoas nesse sentido. E aqui podemos dizer que é uma das salas da escola dos futuros espíritas, daqueles que decidirem engajar-se na construção da nova humanidade.

Com simpático sorriso Suzana esclarece:

– E olha que essa construção não é trabalho apenas para os espíritas. No mundo todo vem surgindo movimentos buscando mais fraternidade e alteridade em todos os relacionamentos.

Impressionado, Anastácio pergunta:

– E a prática da caridade... Onde fica?

– Fazer caridade pode ser merecimento, mas o mais importante é cuidar da evolução – responde Suzana, continuando em tom brincalhão:

– Não tem muito espírita que acha que fazendo caridade está ganhando bônus-hora e garantindo um espaço em Nosso Lar? Caridade é uma coisa, evolução é outra, entende? Na Terra, nos meios espíritas, pela grande dificuldade que representa a reforma interior, a maioria acaba substituindo-a por ações caritativas. Mas não é a mesma coisa. A nossa evolução não decola se não buscarmos, por todos os meios, a vivência dos valores ou dos conteúdos espíritas, transformando discurso em atitudes. Assim, a caridade que fizermos, será movida pelo amor.

– Só que transformar discurso em atitudes é justamente o mais difícil – retruca Anastácio.

Jerônimo interfere:

– Não é tão difícil assim – já se esqueceu da receita da Suzana?

– É verdade. Havia me esquecido. Como é mesmo?

– A receita básica é simples. Você precisa se preocupar apenas com uma única ação: estabelecer sempre em si mesmo, nos seus estados de espírito, o contentamento e a fraternidade. Depois, vai acrescentando outros valores relacionados ao conhecimento, à sabedoria etc.

Jerônimo olha intencionalmente para Suzana que balança a cabeça afirmativamente. Pensa um pouco, como a procurar as palavras e dirigindo-se a Anastácio, diz:

– A Suzana e eu estamos elaborando uma espécie de agenda mínima, que pretendemos repassar para os nossos irmãos reencarnados. Nessa agenda, seguindo orientações do Dr. Bezerra, vamos colocar os pontos principais a serem observados por quem deseja realmente evoluir.

– Nós acreditamos que um dos grandes entraves em nossa evolução – explica Suzana – está no fato de os valores negativos a serem transmutados em positivos são tantos, e multiplicarem-se em tantas nuances e detalhes que acabamos nos perdendo em meio a tudo isso. Mas se organizarmos uma agenda mínima com os pontos mais importantes, estaremos trabalhando o cerne da questão. Assim, fixando-nos em apenas quatro ou cinco pontos, será muito mais fácil cumprirmos um roteiro evolutivo que irá alavancar nosso crescimento interior, de forma bem mais segura e proveitosa.

Anastácio estava alegremente surpreendido. Sempre encontrara grandes dificuldades para transmutar valores negativos em positivos. Refletiu um pouco e comentou em tom triste:

– Se eu tivesse tido acesso a esse tipo de idéias, a essa agenda mínima de que vocês falam, certamente não teria vindo para este horrível lugar.

Silenciou por instantes e continuou:

– Nos últimos anos, venho desenvolvendo uma teoria que vem ao encontro do que vocês disseram. Tenho observado que o grande vilão da nossa evolução é a memória, ou melhor, a falta dela. Sempre que nos decidimos a proceder de tal ou qual maneira, em consonância com os ensinamentos do Evangelho e os ditames da consciência, só percebemos que falhamos depois da palavra dita, da emoção sentida ou do ato praticado. Aí é tarde. Mas se, de acordo com a ideia de vocês, pudermos memorizar os pontos fundamentais...

– Olha só Jerônimo – exclama Suzana, entusiasmada. Isso da memorização de que fala o Anastácio vem complementar nossa idéia. Observe só a importância disso! Com uma agenda mínima, com apenas quatro ou cinco pontos fundamentais, será bem fácil criar procedimentos que ajudem a gerar memória; que ajam como lembretes.

– É isso mesmo! – Diz Jerônimo, sorridente. E dirigindo-se a Anastácio:

– Podemos “roubar” sua ideia?

– Claro que podem. Será um grande prazer para mim, poder contribuir com algo tão fundamental para a nossa evolução.

– E o melhor – conclui Jerônimo, exultante – é que vamos levar em breve essa agenda mínima para os reencarnados. Já está tudo mais ou menos acertado.

– E você vai colaborar conosco – afirma Suzana.

Antes que Anastácio possa dizer algo, Bernardo se aproxima e o segura pelo braço, dizendo gentilmente:

– Vem. Quero mostrar-lhe algo.

Aproximam-se de uma espécie de janela e Bernardo pergunta:

– Está vendo aquele pavilhão?

– Sim, estou vendo...

– É um pavilhão hospitalar – explica Bernardo,

Estranhando, Anastácio comenta:

– Tenho a impressão de que estão olhando para mim, como se eu pudesse ajudá-los.

– Não estranhe Anastácio – diz Jerônimo. – Estes doentes são apenas parte daqueles que deixaram de ser atendidos, por sua culpa.

Muito surpreendido e com uma pontinha de azedume, Anastácio retruca:

– Por minha culpa? Só pode ser engano. Eu sempre procurei ser um bom espírita. Bem... quero dizer, eu dediquei a minha vida inteira ao Espiritismo e, principalmente, à doutrinação de espíritos sofredores.

– Isso é verdade – confirma Bernardo. – Mas a sua tarefa sofreu muitos prejuízos por causa da sua vaidade e orgulho.

Anastácio abre a boca para retrucar mas se cala, enquanto Bernardo continua:

– Sim, Anastácio. Sou eu o enfermeiro que conduz os espíritos doentes ao socorro mediúnico no Centro onde você trabalhava. Os doentes deste pavilhão deveriam ter sido socorridos no grupo que se desfez, em razão de sua vaidade e falta de fraternidade.

Num impulso indignado, Anastácio exclama:

– Mas eu não sou vaidoso.

– É sim, meu caro – afirma o enfermeiro. – Você foi sempre considerado o melhor doutrinador da casa e essa ideia lhe subiu à cabeça. No início, quando entrava na sala das reuniões suas vibrações eram de amor e desejo de ajudar. Mas aos poucos foi se empolgando com a admiração que sua doutrinação provocava em algumas pessoas e em si mesmo. E aí, quando entrava na sala, já não tinha mais aquela vibração de amor, de afeto. Você só ficava pensando em como falaria em tais e quais situações. Seu pensamento, em vez de buscar o Alto, ficava girando em torno dos temas brilhantes da doutrinação e, como você era o principal responsável pelo grupo, este começou a decair, até que se extinguiu. Se você e o grupo tivessem se empenhado profundamente na reforma interior, na construção de atitudes verdadeiramente fraternas...

Anastácio baixa a cabeça, angustiado. Após alguns instantes murmura:

– Meu Deus! Eu que li tantos depoimentos de espíritos que esperavam ser recebidos com honras no mundo espiritual, mas se deparavam com realidades amargas... Nunca pensei em me ver numa situação como esta. Oh, arrependimento profundo... como machuca! Ah, se eu pudesse voltar à vida! se pudesse...

Atira-se de joelhos, baixa a cabeça e balbucia com humildade:

– Meu Deus, tem piedade de mim! Tem piedade de mim! Tem piedade de mim!

Com o rosto molhado de pranto repete, angustiado:

– Tem piedade de mim! Me deixa voltar a viver... Ah, meu Deus, me ajuda! Me ajuda! Tem piedade de mim!

Anastácio sente-se sacudido por mãos invisíveis. Já não vê o enfermeiro nem o ambiente onde estivera. Em meio ao nevoeiro formado pelas lágrimas, vê o rosto da esposa e percebe que é ela quem o sacode, enquanto diz:

– Anastácio! Acorda! Para com isso. Você está chorando... Deve ter sido algum pesadelo terrível...

Anastácio custa a entender que estivera sonhando. A esposa procura confortá-lo:

– Calma, querido, você teve um sonho mau. Foi só um sonho mau.

– Sonho mau – repete automaticamente.

Já completamente acordado, levanta-se de um pulo e começa a rir e a chorar ao mesmo tempo.

– Sonho mau? – Pergunta num rompante. Foi o melhor sonho que já tive... O mais importante!! O mais importante de todos!

Ajoelha-se novamente e, ante o espanto da esposa, levanta o rosto e as mãos para o alto, exclamando:

– Obrigado, meu Deus... Obrigado... Obrigado...

Mais calmo, comenta:

– Agenda Mínima Espírita... Como será que vai chegar?



sábado, 9 de fevereiro de 2013

Defenda-se




Não converta seus ouvidos num paiol de boatos.
A intriga é uma víbora que se aninhará em sua alma.

Não transforme seus olhos em óculos da maledicência.
As imagens que você corromper viverão corruptas na tela se sua mente.

Não Faça de suas mãos lanças para lutar sem proveito.
Use-as na sementeira do bem.

Não menospreze sua faculdades criadoras, centralizando-as nos prazeres fáceis.
Você responderá pelo que fizer delas.

Não condene sua imaginação às excitações permanentes.
Suas criações inferiores atormentarão seu mundo íntimo.

Não conduza seus sentimentos à volúpia de sofrer.
Ensine-os a gozar o prazer de servir.

Não procure o caminho do paraíso, indicando aos outros a estrada para o inferno. A senda para o Céu será construída dentro de você mesmo.




André Luiz

(Mensagem retirada do livro "Agenda Cristã" psicografia de Francisco Cândido Xavier)

Aparências


Não acuse o irmão que parece mais abastado. Talvez seja simples escravo de compromissos.

*

Não condene o companheiro guindado à autoridade. É provável seja ele mero devedor da multidão.

*

Não inveje aquele que administra, enquanto você obedece. Muitas vezes, é um torturado.

*

Não menospreze o colega conduzido a maior destaque. A responsabilidade que lhe pesa nos ombros pode ser um tormento incessante.

*

Não censure a mulher que se apresenta suntuosamente. O luxo, provavelmente, lhe constitui amarga provação.

*

Não critique as pessoas gentis que parecem insinceras, à primeira vista. Possivelmente, estarão evitando enormes crimes ou grandes desânimos.

*

Não se agaste com o amigo mal-humorado. Você não lhe conhece todas as dificuldades íntimas.

*

Não se aborreça com a pessoa de conversação ainda fútil. Você também era assim quando lhe faltava experiência.

*

Não murmure contra os jovens menos responsáveis. Ajude-os, quanto estiver ao seu alcance, recordando que você já foi leviano para muita gente.

*

Não seja intolerante em situação alguma. O relógio bate, incessante, e você será surpreendido por inúmeros problemas difíceis em seu caminho e no caminho daqueles que você ama.

* * *


Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Agenda Cristã.
Ditado pelo Espírito André Luiz.
Edição de Bolso. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1999.