“Eu me
chamo Pai Ambrósio. Sou no Astral um preto velho, por simpatia a esta forma
espiritual, e obreiro socorrista desencarnado da igreja A...Também faço parte
do Grupo de Umbanda Triângulo da Fraternidade, no qual o amigo Ramatís nos
autoriza a trabalhar e dele é o tutor espiritual. O médium que escreve meus
pensamentos é um dos componentes da corrente. Hoje estou acompanhando um grupo
de outros obreiros evangélicos que estarão visitando este centro de umbanda
pela primeira vez. Este intercâmbio ecumênico é comum do lado de cá,
infelizmente ao contrário daí. Vou contar um pouco da minha última vida na
carne para que os leitores possam compreender como cheguei aqui e como Deus é
bom.
Durante décadas freqüentei um mesmo
centro espírita na crosta, localizado na região central de uma grande capital
brasileira. Todos os dias em que ia para o labor espiritista, deixava meu carro
numa garagem próxima e andava algumas quadras até a sede do centro, passando
por uma vistosa praça. Sempre que atravessava por entre os bancos da praça, com
seu lindo chafariz central, lá estava um pastor evangélico aos berros citando o
Velho Testamento, doutrinando os “ventos”, pois geralmente estava só; vez que
outra um ou outro mendigo o escutava. Toda semana, infalivelmente, fazendo
chuva ou Sol, lá estava o pastor lendo a Bíblia e fazendo sua preleção, o que
para a minha racionalidade espírita era pura fascinação.
Passaram-se os anos, eu me tornei
dirigente de grupo, palestrante, eminente orador, coordenador da escola de
médiuns, diretor espiritual e finalmente presidente e membro de federação.
Assim como galguei degraus na hierarquia do centro, minha atividade
profissional como juiz federal também deslanchou e cheguei ao máximo da
carreira.
E lá estava ele, firme como uma
rocha intocável, o velho conhecido pastor evangélico, raramente com um terno
diferente. A sua Bíblia já gasta e amarelada, ele estático naquela atividade e
eu bem sucedido profissionalmente e no topo de uma tarefa espiritual. Olhava-o
e tinha pena da criatura, ensimesmada nas leis mosaicas e impenetrável às luzes
libertadoras de Jesus reforçadas com a Boa Nova do espiritismo. Por vezes
cheguei a abordá-lo, dizer da sua perda de tempo, recomendando a ele comparecer
ao centro que eu dirigia, mas ele sempre me olhava com olhos de quem via algo
que eu não via; dizia que me perdoava pelo erro de julgamento e continuava as
suas preleções aos poucos transeuntes que paravam para escutá-lo. Envelhecemos
juntos, literalmente lado a lado, nos encontrando toda semana.
Chamava-me a atenção a sua
pontualidade e férrea regularidade no comparecimento à praça. Muitas vezes
citei-o como exemplo de persistência em nossas reuniões de conselho na
federação, brincando com os outros dirigentes, pois se até um pastor evangélico
conseguia ser assíduo no seu templo-praça, sofrendo as intempéries climáticas
forçosamente na cabeça, com certeza eles conseguiriam regularidade nos centros
que dirigiam, ou não éramos espíritas de verdade.
Enfim, minha derradeira hora
chegou e desencarnei como presidente de centro renomado, eminente espírita e
desembargador aposentado. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que não
fui para nenhuma colônia e muito menos visualizei qualquer mentor espiritual!
Não tendo ocupação no além-túmulo, fiquei perambulando no centro espírita,
continuando a mandar nos médiuns que, pasmem, obedeciam às minhas ordens
mentais. Não sei quanto tempo se passou, mas era como se eu ainda estivesse
vivo e trabalhando no centro ao qual tinha me dedicado por tanto anos.
Certa noite, quando menos esperava,
fui atraído por uma força centrípeta incontrolável e me vi fixado no corpo de
um médium, como se estivesse dentro dele, e pude falar normalmente com os vivos
da mesa como se fosse dono da cognição e psicomotricidade daquele amontoado de
carne quente que me acolhia. Senti um bem-estar que há muito já havia esquecido
que existia. Disse-lhes que eu continuava o presidente, que não os abandonara e
tinha algumas orientações a dar, pois estava contrariado com as recentes
mudanças, que as coisas tinham que voltar a ser como eram. Pasmado, escutei o
doutrinador me esclarecer que já tinham se passado dez anos do meu desencarne,
que estava na hora da minha libertação da Terra, que eu não poderia mais ficar
ali junto com os médiuns. Agradeci e disse que estava à disposição para ir para
uma colônia espiritual no Astral Superior, que deveria ser o meu lugar, por
inquestionável direito conquistado e reconhecida obra realizada. Ao terminar de
falar, senti uma sonolência gostosa, um leve torpor acompanhado de uma força de
sucção centrífuga, puxando-me para trás pela nuca, e senti um calafrio ao
desacoplar-me do médium.
Suave e repentinamente
desvaneceram-se todas as formas da construção em que eu estava e vi-me numa
estrada escura e completamente solitário. Andei, andei e andei e nunca
encontrava ninguém. Tanto caminhei que as solas do meu sapato ficaram gastas e
comecei a andar descalço, sentindo muita fome, sede e cansaço. Um dia, com
feridas sob as solas dos pés e pústulas fétidas nas canelas que tinham se
formado pelos constantes arranhões de galhos secos que encontrava em meu
caminho, sento no chão e começo a orar ao Alto:
- Pai Santíssimo, porque me
abandonaste? Eu que sempre me dediquei ao centro, ampliei-o, expandi os
trabalhos, aumentei o número de freqüentadores, sistematizei a escola de
médiuns, estruturei o departamento social, aumentei o quadro de associados,
ampliei a livraria e a arrecadação... por que, meu Pai, por quê???
Sentado, batia com as mãos no chão
num choro de raiva e autocomiseração, sentindo pena de mim mesmo.
Aos poucos, foi surgindo uma luzinha ao longe: parecia
um vagalume se aproximando. A luz paulatinamente foi crescendo e pude ver um
homem com uma vela num castiçal e uma Bíblia embaixo do braço se aproximando,
cada vez mais perto, mais perto:
- O quê!? Não acredito! Você, o
pastor evangélico! O que faz aqui? Cadê os socorristas do centro? Os
caravaneiros de Maria de Nazaré? Os confrades amigos?
- Meu querido irmão, Jesus a todos
nos conforta e de ninguém se faz ausente. Posso ajudá-lo? Venha comigo!
- Nunca. Você é um inepto sem
estudo e formação teológica, que nada realizou em toda uma encarnação. Como
pode agora querer me socorrer, eu, um jurista irrefutável, elevado tribuno e
renomado presidente de centro espírita?
- Meu caro, olhe a sua situação:
você nem consegue ficar em pé, seus cabelos estão longos e desgrenhados, suas
unhas enormes, suas roupas em farrapos, suas pernas purulentas e o seu
semblante chupado qual cadáver andando na noite. Está fraco, com fome e sede,
mas não verga seu orgulho insano. Precisa de ajuda e cá estou ao seu lado, o
primeiro desencarnado que comparece em seu auxílio. Ou já viu algum outro?
- É verdade, tenho que admitir que
nunca enxerguei nenhum, você é o primeiro, para a minha decepção. O que houve?
Por que o meu abandono? O que eu fiz de errado? Onde está o amor fraternal e
consolador tão apregoado nas hostes espiritistas?
- Querido irmão, o amor de Jesus
está aqui e igualmente em todos os lugares a que vamos, sempre ficando com cada
um de nós. Você não o sente pois desgarrou-se do Seu rebanho. Mas
tranqüilize-se, eis que nunca esteve perdido.
- Mas o que houve? Ao menos você,
mesmo nada tendo realizado, me diga!
- Amado irmão, temos que reconhecer
que fez consideravelmente em favor da doutrina e da causa que abraçou. Todavia,
se muito fez, muito mais recebeu em vida. Deixou-se contaminar-se pelo vício do
reconhecimento e com o “sucesso” e brilho intelectual de renomado dirigente
espírita.
- Mas tudo o que fiz de nada valeu?
- Claro que foram de grande valia
para a coletividade, mas de muito maior valia foram para o gozo do seu ego.
Recebeu na carne todos os bônus pelo seu trabalho e voltou para cá devedor,
pois por muitas vezes não fez por altruísmo ou caridade, mas unicamente pelo
anseio dos elogios e consagração do seu sacerdócio frente aos seus pares.
- Quem é você para me julgar, um
inepto que nada fez?
- Meu caro, se o julgo, é para que
desperte da chama da vaidade. Com a mesma medida com que medimos somos medidos.
Meço-o para socorrê-lo. E você, que por anos e anos a fio me julgou, por
simples escárnio e senso de superioridade? Quantas vezes fui motivo de piada
sua entre seus pares, nos corredores do centro? Na verdade está em débito com a
Lei Divina. Seja humilde e deixe-me interceder em seu favor, levando-o daqui
para um lugar melhor.
Neste momento, a Bíblia do pastor
ficou luminosa como se fosse ouro fosforescente e vi-o pregando em praça
pública com centenas de espíritos desencarnados em volta, escutando-o. Ao mesmo
tempo, falanges de socorristas dos centros espíritas e de umbanda próximos
atendiam-nos; padres, enfermeiros, caboclos e pretos velhos unidos auxiliando
os sofredores perdidos – colocavam-nos em macas e os levavam para os diversos
hospitais do Astral. Enfim, compreendi tudo. Oh Deus, como estive errado em
toda uma existência!!!
- Sim, é verdade. Diante do que você fez,
no silêncio de uma vida, eu nada realizei, quando me comparo. Você que foi alvo
do meu barulhento escárnio, trabalhou em silêncio com afinco e humildade. Eu
sempre usei minha intelecção para as glórias efêmeras do reconhecimento de meus
confrades. Recebi em vida e devo ainda muito. Você nada recebeu na Terra,
acumulando para quando voltasse para a vida real do espírito. Pode me emprestar
alguns vinténs no livro da contabilidade sideral? Aceito a sua ajuda e peço o
seu perdão.
- Nada tenho a perdoar, querido
irmão, pois em nada me ofendeu. Aquele que não se ofende não tem o que perdoar.
Vamos, dê-me as mãos e partamos logo daqui.
Com choro sincero, não só estendi a mão
como abracei ardentemente aquele pastor evangélico como nunca me lembro de ter
abraçado alguém.Adormeci como uma criança que é levada para a cama por um vovô
protetor e bondoso.
Acordei numa espécie de internato
evangelista no astral, alimentado, vestido, limpo e num quarto com linda vista
para um jardim florido em dia ensolarado. Suave cheiro de jasmim impregnava o
ambiente e um lindo canário amarelo chilreava na janela. Um educado monsenhor
entra e diz-me que tinha desencarnado fazia 20 anos. Passara dez anos no centro
espírita, no meio dos encarnados, até que fui “removido” numa sessão de
desobsessão. Ocorre que eu, não tendo merecimento para ser socorrido, tive que
ficar mais dez anos andando a sós numa estrada escura, que em verdade era uma
concha astral refletindo meu estado egoísta e solitário de consciência. Eu
mesmo me bastei por anos e anos na Terra, sempre mandando nos outros, e tive
que ficar sozinho uma década para vencer o meu orgulho de Hércules e
permitir-me ser ajudado.
Enfim, para a minha história não se alongar
demais, hoje sou um obreiro socorrista num igreja evangélica e conduzo para a
umbanda os espíritos afins com a egrégora dos Orixás, caboclos, pretos velhos e
exus. Eu ainda tenho muito que aprender a obedecer e a colocar a “mão na
massa”. Vou também seguidamente junto com os pastores que fazem pregações nas
praças e ajudo socorrendo os sofredores desencarnados que se amontoam em
volta.
Hoje compareci para contar um pouco da minha história,
participar de mais uma gira de umbanda que ocorrerá daqui a pouco e contribuir
com Pai Tomé e Ramatís, testemunhado a verdade do lado de cá - estamos todos
unidos em nome de Jesus, num congraçamento espiritualista ecumênico, amoroso,
eclético e universalista que se une na essência do amor e se desvincula das
formas transitórias terrenas, sectárias e que tanto separam os homens do Cristo
Interno.
Sou o Pai Ambrósio, por simpatia um
negro véio, simples obreiro socorrista em nome de Nosso Senhor Jesus, não
importa onde nem com quem.
Muito obrigado e muita paz para todos os espiritualistas
da Terra.”
Ao final da comunicação, escutei um ponto
que foi cantado por um coral de entidades que haviam sido socorridas em outras
ocasiões por Pai Ambrósio...
Chegou Pai Ambrósio, chegou
Pra salvar os filhos de fé
Na Umbanda só se vence com amor
E ele vem, na linha do Senhor
E ele vem, em nome do Senhor
Nota de Ramatís - 1: As sábias Leis Divinas impõem quitação de até o
último centavo das vossas dívidas cármicas. Ao invés de ferrenho juiz, o Pai é
benevolência incondicional e contempla na engenharia do Cosmo mecanismos
inexoráveis à redenção pelo amor, para alcance dos planos angelicais.
O pastor que passou uma encarnação pregando na praça
pública e socorrendo desencarnados redimiu-se de sua encarnação como ferrenho
sacerdote inquisidor que mandou centenas de benzedeiras, curadores,
quiromantes, boticários e ciganos para as fogueiras. Atuava instalando
pequenos, ágeis e móveis tribunais inquisitoriais nas praças medievais das
pequenas vilas e cidades da época, especializando-se em julgar os aldeões e
nômades pagãos que não haviam se convertido ao catolicismo. Por sua vez, o
ex-presidente do centro espírita fora seu fiel amigo cardeal e sacerdote chefe
do temido Santo Ofício espanhol, que o acobertava nos assassínios fratricidas
em nome do Cordeiro. Ambos espíritos muito endividados com a contabilidade
sideral, nos entrecruzamentos da verdadeira vida do espírito imortal,
encontraram-se mais uma vez para resgatarem reciprocamente suas dívidas.No
momento o antigo pastor está encarnado, desempenhando importantes tarefas como
médium de cura em renomado centro universalista ecumênico em vossa capital
federal, e o ex-líder espírita é dedicado obreiro do lado de cá na causa de
Jesus, desempenhado atividades como mais um anônimo preto velho na Umbanda.
Nota de Ramatís – 2: “Não há desdouro nem desmentido no processo
evolutivo da alma imortal, quando, apesar do seu avanço intelectual e
científico no mundo terreno, precisar envergar o traje humilde do preto velho
ou do caboclo rústico, a fim de conseguir o seu reajustamento espiritual
combalido e tão prejudicado no pretérito. Em verdade, trata-se apenas de um
estágio ou espécie de descanso intelectual, em que o espírito superexcitado por
excessivo racionalismo efetua salutar decantação de sua personalidade humana
que fora muito envaidecida com as lantejoulas brilhantes do cenário terreno!
Sem os louvores e o destaque que lhe nutriam a vaidade
no passado, o sábio, o estadista, o médico ou cientista então efetuam
verdadeiro "dreno" psíquico e o expurgo do tóxico intelectual
produzido pelo orgulho ou vaidade da velha personalidade humana. A inteligência,
a capacidade e a prepotência incomuns do passado atrofiam-se pela ausência de
estímulos pessoais e relevos decorativos no seio da Humanidade.
Eis por que não opomos dúvida quanto à possibilidade de
espíritos cultos de sábios, cientistas ou médicos famosos virem a
manifestarem-se nos terreiros de umbanda ou mesmo junto às mesas kardecistas
sob o traje humilde do preto velho ou da vestimenta apagada do caboclo.”
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