A cidade, regorgitante, era um pandemônio.
(...)
Trabalhadores do nosso plano diligenciavam
atendimentos a pessoas encarnadas (...);
urgências para recém-desencarnados
em pugnas decorrentes da ingestão
de bebidas alcoólicas, de desvarios sexuais,
das interferências subjugadoras
de seres obsidentes...
(...)
(...) Subitamente fui colhido por uma surpresa, que me tomou de emoção feliz.
Vislumbrei um diligente cooperador que me fazia recordar célebre poeta e compositor, cujas músicas populares foram-me familiares quando na Terra.
Circunspecto, atendia, gentil, no seu labor, sem alarde, nem afetação, ao trabalho que lhe fora confiado.
Acerquei-me e indaguei-lhe o nome, confirmando a suspeita quanto à sua personalidade.
Sem qualquer indelicadeza inquiri, para minha própria aprendizagem, como conciliava a sua atitude de ex-sambista, vinculando às ações do Carnaval, com a atual, longe do bulício festivo em trabalhos de socorro ao próximo?
O amigo assumiu uma posição meditativa e, sem ressentimento, respondeu:
- Enquanto, na Terra, (...) Sem resistências morais, resvalei, não poucas vezes, carpindo, na soledade e na fuga pelos alcoólicos e drogas outras, o tormento que me não deixava.
Amei muito, certamente que um amor desconcertante, aturdido, que passeava pelos bares de má fama e cabarets, sorvendo toda taça de aflições (...).
A desencarnação colheu-me a vida física ainda jovem.
Despertei sob maior soma de amarguras, com fortes vinculações aos ambientes sórdidos, pelos quais transitara em largas aflições.
(...) As muitas composições pessoais e aquelas em parceria, no entanto, inspiravam e despertavam ternura, retratando situações e acontecimentos do coração, que provocam emoções positivas...
(...) a minha memória gerou simpatias e a mensagem das músicas provocou amizades, graças a cujo recurso fui alcançado pela Misericórdia Divina, que me recambiou para outros sítios de tratamento e renovação, onde despertei para realidades novas.
Passei a compreender as finalidades superiores da vida, que eu malbaratara, descobrindo, porém, que é sempre tempo de recomeçar e de agir, iniciando, desde então, a composição de outros sambas ao compasso de bem, com as melodias da esperança e os ritmos da paz, numa Vila de amor infinito...
O Carnaval, para mim, é passado de dor e a caridade, hoje, é-me festa de todo dia, qual primavera que surge após inverno demorado, sombrio.
Calou-se e sorriu algo triste, para logo concluir:
- Apesar da noite vitoriosa, o dia de luz sempre triunfa e o bem soberano tudo conquista...
Abracei-o, reconhecido, e fui-me adiante a meditar nos apontamentos vivos que acabara de recolher.
(Trecho de FRANCO, Divaldo Pereira; pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Nas Fronteiras da Loucura, Salvador: LEAL, 1982, cap. 6, pp 51 a 56. Obs.: O título desse trecho foi adicionado aqui).

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